terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

a tia e a sobrinha



tinha um ar angelical
e uma beleza sem igual

na idade da primavera
tê-la era uma quimera

e na noite mais escura
onde se trocava ternura
havia um candeeiro na rua
fazendo as vezes da lua

as noites eram de espuma
debaixo da sumaúma
tão húmidas e tão quentes 
que confundiam as mentes

no corpo usava uma cinta
a conselho da tia de trinta
mulher bastante sabida
na experiência adquirida

e namorando a sobrinha
era a tia que lhe convinha.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

casas de 'passe'

José Malhoa_ O Fado _ (Adelaide da 'Facada' e o seu "marialva") 

águas corridas

passadas
da chuva
rios e levadas
perderam azo
de a par-e-passo
moverem as feridas 
deixadas
e as memórias
criadas
das más-línguas
e as estórias 
tão sujas
nas casas contíguas
às ruas.

vinhas

Uvas em cacho douradas
Nos lábios de beijos
E a espuma da noite
Derretida nas horas 

Nos olhos jovens desejos
Trocados em ternura de lua
Debaixo dum raro candeeiro
Que era deles por inteiro

E a rua era toda sua. Como sua
Na idade era a inocência.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

noites de s. joão



virgens de dores
pétalas doces
saga
em corpos soltos
oh clamores
perdidos somos 
entre a bruma 
dum simples olhar
para aí parar 
sempre a pensar 
com o coração 
preso ao falar.

andam as ruas 

a desabitar 
toda a fauna 
dentro do mar
e toda a forma 
a desenhar 
um risco unido 
no horizonte
perpendicular 
rasgando o céu 
em cores diletantes 
até aos montes
a zebrar 
a planície 
estendia 
em frente 
desse cantar. 

oh alegria 

no sol a espairecer
na urbe construída 
para te amar
e nas janelas 
entre vielas 
há uma paisagem 
a renascer
roupas em velas 
e as calçadas presas 
ao olhar 
e nelas se concentrar.

saltam cantigas 
a desfolhar 
vozes prendadas 
entre o luar
e todo um coro 
a deslizar 
no nosso rio 
a festejar
sobem balões 
a contentar 
olhos rendidos 
ao seu vagar. 

pátios antigos 

de mouros 
hoje estendidos 
no sangue herdado
e a conquista 
cruzando a dor 
e a pele na cor 
presença 
nas ruelas estreitas 
e singelas
entre o abraço
no curto passo
fintam os rostos 
muito bem postos 
e o seu andar 
quase a passar.

divagações




"Se a cada coisa que há um deus compete,
Porque não haverá de mim um deus?
Porque o não serei eu?
É em mim que o Deus anima
Porque eu sinto.
O mundo externo claramente vejo —
Coisas, homens, sem alma."

12-1931
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa

(divagações sobre o poema)

Pesa em mim a dúvida como se dúvida eu fosse. Pesa o silêncio
envolvente do universo por achar.
E eu, mundo interior dum cosmos,
tenho a gravidade inscrita. A de todos os segredos por desvendar.
Nada sei do que não sei e tão pouco é o nada que sei. Há só uma certeza na certeza da minha existência: que sou. E ela, tão curta para, tão volátil e tão frágil, deixar descobrir o que não se deixa saber. É razão, essa, a vida na incógnita da própria vida. Para quê, então, questionar? Pode-se respirar sem se ver, pode-se viver sem pensar, mas jamais se poderá viver sem sentir. E esse peso que o corpo carrega, o espírito regista. Todas essas memórias são átomos que se dispersam, como dispersos são os átomos do respirar e do tocar. E todos eles se misturam ao mundo. Esse mundo que lhe deram razão e perfeição.
Daí esta questão: porque não serei eu o deus na minha própria criação? Teria um deus por dentro, associado a todos os outros, formando o Uno da Razão.