quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

sombras passadas

foto: luís castanheira
quando pequeno eu olhava
os gigantes inacessíveis -
- pés de barro, sem o saber-.
via-os frios, em distâncias a perder
mas, à medida que crescia,
fui vendo-os como nunca os via
mais pequenos eles ficavam,
mais comuns eles se tornavam
e, quanto mais me aproximava
deles, menos sombra se projectava.

Assim é o Ano Velho, que acabou
e um Novo, para melhor, se iniciou!



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

as cadeiras vazias

luís castanheira
À minha frente todos os lugares estão
vazios.  Esperam... Ausências físicas
de corpos, em momentos que ficam
nas memórias do redondo espaço. Mas que
diferença fará, a esses lugares, vazios
ociosos e frios?
Será total a indiferença
mas para mim não. O silêncio
espelhado, plasmado, é de ouro
ou outra coisa qualquer...É como estar
e em todas as cadeiras,  sentar-me
nelas, ao mesmo tempo e com elas falar
com os meus "eus", habitantes do espaço.
Trocamos olhares e sei o que pensam
sei o que querem.. Às vezes discordamos  
noutras a concordância é total
por vezes o interesse do diálogo desperta o meu sentido.
Aí, tenho uma longa e salutar conversa
sobre tudo e sobre nada. Em silêncio... E o que fica
já não é solidão. É o  sentimento 
da existência, por dentro da paixão.

17.dez.2014


coimbra


foto cedida por António Dias


minha cidade
meu ninho 
meu canto
mondego do meu encanto



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

a espera

foto luís castanheira
À beira do Tejo
um café e um desejo:
não demores!
Límpida suavidade
É a espera de verdade.

(por ti, Sofia)

sábado, 29 de novembro de 2014

olhos nos olhos

foto luís castanheira

olhos nos olhos
num rompante encadeado
vejo a tua alma

aberta
sentida 
mas não perdida.
e fitas-me
com um olhar de momento
que mal tinha começado
e logo ali, acabado.

impulso rasgado no tempo
de breves segundos, pairado
como borboleta translúcida
vaga perdida no areal
dum sol raiado por entre nuvens
numa tarde tardada e
na chuva caída, adormecida.

ficaste ali no instante
em que te vi
e logo perdi.

passa o tempo
passa a vida
passa gente
passa tudo
e só tu não passas
por mim.


passa a chuva
passa o rio
passa o mundo
passa o frio
e só tu não passas
por mim.

e eu estendo-me
ao teu encontro, todo.
procuro-te
como cego perdido
e não te sinto.

(será que estás
por fora de mim?)

- olha a minha mão
na ponta do coração !



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

labirinto

foto: luís castanheira
Perco-me em mim
labirinto sem fim.
Nada o que parece 
foi ou é.
Onde estarão as memórias
fieis às origens?
O Tempo adulterou-as!
Hoje estão sublimadas
mudadas, momento a momento.
Até... ao esquecimento.




quarta-feira, 22 de outubro de 2014

a taça

taça Wicca

Na minha taça há um sonho não bebido,
uma qualquer essência dilatada, 
mas não transbordada.
Há um grito ou um gemido,
ali escondido,
preso ao metal,
que não se solta nem me faz mal.
É desse sonho que me alimento
- olhando a taça à distância dum lamento -
não o bebendo, matando a sede só de olhar
e esse grito ou gemido vem-me falar, 
comigo só e só comigo...... e esse sonho é meu amigo!


terça-feira, 21 de outubro de 2014

marés vivas III

 foto: luís castanheira - artesanato
Vestido de horas incertas
nesse mar, que confundido,
os teus olhos quer beijar,
não te quer achar perdido
e a ti se pretende juntar.
Uma mão cheia de nada,
numa noite sem alvorada,
é a solidão que ora apertas.
Corpo de mágoas fendido

sob o manto da indiferença
deitas-te no colo do mar
no sonho de ele te amar.



sábado, 18 de outubro de 2014

marés vivas II

nocturnas praxes em praia sem luar
onde os jovens sonhos veem morrer
asas de destino tocadas pelo mar
nas ondas de dor, do tempo a sofrer.

( Meco, um ano após -16.dez.2013 -
  homenagem  aos que ficaram sós)



quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Equador

Paquete "Quanza"

I

Era um navio, um quase barco a vapor
nele, a criança cruzava a linha do equador 
o "Quanza", velho, num lento navegar, 
e como guias, os golfinhos a acompanhar
além de prateados peixes-voadores a saltitar.

E o menino, deitado no convés, contemplava, 
pelo orifício da âncora, entre o passar das horas,
do ar e do mar, aqueles seres, que tanto o alegrava.

Sem solidão, deles tornar-se-ia seu irmão! 


foto: luís castanheira
II

Um chão de mar estendido ao olhar
e o "Quanza" a lamentar o seu vagar
esse  navio, quase barco  a vapor
ao meio-dia, a travessia da linha do equador


e os olhos de mudança, na criança
que à proa, entre a aberta da âncora
deitada, debruçada, espreitava
os  golfinhos, lado a lado a acompanhar 
a quilha no seu lento e suave navegar.

Como era belo o sonho na descoberta
da liberdade entre a inocência e a coberta
e uma terra lá, ainda longe, à espera como meta.


III

Um chão de mar estendido ao olhar
e o "Quanza" a lamentar o seu vagar
os olhos de criança no rumo da mudança 
desse  navio, um quase barco  a vapor
na travessia, do meio-dia, e  equador
o reflexo do sol na água em bonança

O céu azul, linha de costa à vista e calor
horas passadas, deslumbradas de amor
silhueta deitada, debruçada, a espreitar
os  golfinhos, lado a lado a acompanhar 
a quilha no seu lento e suave navegar
lavrando as águas dum chão por achar

Os peixes-voadores, em cardume, a saltar
- o inconformismo da solidão em tanto mar -
amigos que eles foram em longas horas
exibindo a perícia incansável dali estar
entre o meio de mergulhar e respirar

... e todo o mundo era feito e perfeito
nada por dentro deformava esse jeito
e por fora o oceano prateado a cantar
o céu que se dava a essa doçura de luz
onde menino a vida sempre seduz
e o silêncio sussurrado desses seres a falar


Como era belo o sonho na descoberta
da liberdade entre a inocência e a coberta
e a terra lá, ainda longe, à espera como meta
e essa memória de viagem foi guardada
como um coração guarda dentro do peito
a esperança que não se esqueça do seu feito:


- o sonho construído do momento,
   ver a vida da vida que alimenta!

terça-feira, 7 de outubro de 2014

o nome

foto: sofia almeida

entre o sonho escolhido 
dei-te um nome e dele 
tu fizeste céu e mar
abriste asas num voo plano
e estendestes o teu doce olhar
na plenitude do verbo amar.

os longínquos horizontes, ficaram tão perto 
- tornaste-os por dentro do sentir - 
que, quando escolhidos, foram precisos.

poderás ser tudo...
poderás  ser até a borboleta a agitar
o mundo que poderás mudar 
nesse extasiante  aroma do ar.

(eu, em terra, sentir-me-ei vivo enquanto o respirar)

(para ti, Sofia)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

rua com saída

da Net



entre a catraia da calçada
rua que não leva a nada
há outra rua diferente
com outeiro de permeio
encostado ao seu seio
cruzando o mundo de gente

outeiro em verde pinheiro
era borlado em lameiro
era esse o seu mundo
mundo de sonho menino
fechado como um destino
onde o sonho crescia fundo

sem horizonte no monte
era a lua a sua fonte
quando a rua com saída
lhe despertava a sede
de rasgar qualquer rede
partir nessa rua de partida

o sonho fez-se gigante
e mesmo sem um turbante
lançou-se à descoberta
das arábias em areias
horizontes sem as teias
e a mente bem aberta

e lá partiu para nunca mais voltar...

(mas isso era só um sonho... leituras 
 da carrinha da Gulbenkian)


rua sem saída

foto: luís castanheira


vagas dispersas de multidões
soltas ao vento que a rua acolhe
mundos fechados entre portões
o olhar vago que não se escolhe

a indiferença passa ao lado

e na esquina sempre fendida
há um rebordo feito de fado
uma sentinela sem a guarida

a chuva cai e o vento segue

ocupam espaços que já não são
ferida a calçada  tudo se perde

mágoa do tempo no tempo incerto
e sem valia fica mais fria a solidão
daquele pedinte aqui tão perto

és perfume da alvorada

foto: luís castanheira

és a noite, és o dia
és a minha sinfonia
és borboleta a voar
na aurora  de magia
tudo o que eu queria
para te puder amar.

(onde a noite se perdia
dentro da minha alegria
no dia que amanhecia)


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

na minha aldeia

a minha aldeia é uma teia
de gente linda e gente feia
há uma rua, única rua 
a dividir toda a ternura

e essa rua  é quase crua
deixa nos lábios a amargura
desses teus beijos
soltos,... e em desejos
mas separados da minha boca
longe da tua, .....seca e oca

há uma rua 
que não é minha
e nem é tua
e nos desalinha
qualquer olhar
mesmo a passar

há gente linda e gente feia
e nessa teia, há muitas línguas
pois nessa rua há quem semeia
mesmo às minguas
a maledicência
como referência

a minha aldeia é triste e feia
mas cá,... onde tu moras
torna-la linda, bela e cheia
como a colmeia, ...como as amoras.






terça-feira, 23 de setembro de 2014

...o vazio

negativo foto: luís castanheira

...e de pé fica o vazio


o homem olhava o mar 

sem o ver
sem perceber
o homem procurava o ar
sem o sentir
sem o cheirar
o homem sentia a dor
com ardor
com terror
o homem perdia a esperança
dura hora
em demora 
o homem só queria ter
o mesmo dia
a renascer
o homem só queria olhar
aquele rosto
- lindo rosto - 
o homem só queria sentir
o seu amor
o seu calor
o homem só queria ver
novamente
docemente
permanente

a companheira acabada de perder...

e este mar...
que tanto lhe deu
agora veio tirar

neste mar...
onde a mãe morreu
para a filha salvar

(ontem, um alto preço a pagar.)



domingo, 21 de setembro de 2014

mar a dentro

foto:luís castanheira


a espera dia após dia

da chegada sem partida
numa praia sem medida
filhos que a noite perdia
corpos que o dia não via.

(já nada mais se faz esperar...)






sábado, 13 de setembro de 2014

só com o mar

foto: sofia almeida

na tarde cansada
caída
a tarde das tardes
vivida
com sopro de tempo
varrido
e um choro de sombra
tingido.

o ar ensopado

do mar
as ondas batidas
no ar
e no horizonte
o luar
com cheiro perdido
ao chegar.

as horas raiadas

a passar
pelo corpo sentado
na areia
e a dor mergulhada
no olhar.

o homem perdido

ao achar
a solidão consigo
a navegar. 

(inspirado num poema da Sofia, in: Jardim de Palavras)

foram dois fins-de-tarde, na praia
onde, sozinho o via....e este homem sofria.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

raízes



foto sofia almeida
raízes

onde estão minhas raízes
onde estão
a prenderem-me ao chão?

agora que o voo é solto
a terra só me quer morto.

10.set.2014

terça-feira, 9 de setembro de 2014

promessas...

se tivesse muito dinheiro
falava contigo primeiro
comprava-te a felicidade
toda junta, por atacado
dava-te um novo fado
datado mas sem idade.

construía uma nova ilha
onde a memória fosse filha
dum passado arredondado
de caminhos sem esquinas
as palavras fossem finas
num presente torneado.

ai, se tivesse muito dinheiro...
comprava-te o mundo inteiro
nem as pedras da calçada
nem a relva do jardim
teriam queixas de mim
ao pisá-las em danças da alvorada.

ai, se tivesse muito dinheiro...
transpunha o rio num cacilheiro
ao encontro doutra margem
e de braços bem abertos
eu enchia-te de afectos
até o coração ter paragem.

ai, se tivesse muito dinheiro..
descobria-te pelo cheiro
que largasses ao redor
não precisava de pensar
que o sonho é criar
e não em ganhar bolor.

- ai, se tivesse muito dinheiro...
esquecia o amor primeiro
perdia-me só com o cheiro!

9.set.2014




terça-feira, 2 de setembro de 2014

fora de tempo

não sei 
o sentido que hei-de tomar...
se hei-de partir ou ficar.

a dúvida é escolher

onde gostaria de estar
e não perder
nada do que me fez amar.

mas sei

para onde irei
se este lugar morrer em mim
vestido com a dor desse fim.

(hoje,  uma  amiga  disse-me

 que tinha cancro desde Outubro
e estava enfrentá-lo com alegria)

porque será que a poesia não surge em dias de alegria?


lm.-02.set.2014

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

insónia

Entre o fumo dum cigarro
esvai-se o pensamento solto
e, onde deveria ter parado, agarro
um vago sentimento morto
que ao nascer já era torto.

Tento endireitar as linhas
numa escrita de fantasia
as horas já não são minhas
são dum tempo que não havia
e dum espaço que não se cria.

O sono, esse não vem
atirar-me p'ro descanso
onde lá estaria bem
a repousar d'um dia manso
que passou num simples lanço.

20.ago.2014

domingo, 17 de agosto de 2014

Uma flor à minha espera


luís castanheira
Uma flor ainda em jardim
espera ansiosa hoje por mim
é uma rosa algo amarela
que de esperança sente e desespera
mas como ainda há primavera
há-de em frescura conservar-se bela.

Não é vermelha nem branca era
mesmo que o inverno chegue ao pé dela
tem um sorriso mesmo na espera
por mim que agora vou ter com ela.

ago.2014

vozes na escuridão

Hoje acordei já tarde
e a vida  não esperou
por mim
na manhã que passou

mesmo assim oiço uma raridade:
(na rua alguém propaga uma ’verdade’)
a vinda de Cristo, novamente

e um folheto distribuído por mão crente.

(ai, se isso acontecesse...eu teria novo interesse.)

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

sombras

foto luís castanheira
na minha mão repousa um sentimento
candeia acesa em noite treva
e a escuridão já é só um lamento
é ela agora a minha serva
um olhar terno, um sorriso meigo
poisado em lágrima de contentamento.

(amar, é este querer, acreditar mesmo a sofrer)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Paulo Périssé_Salt Laty City - Utha

LP  _ Face





Mensagem manuscrita em álbum de vinil, duplo, LP comprado em loja de usados - Lisboa - Pretendo devolvê-lo ao autor da dedicatória (Paulo Périssé) esteja onde estiver.






LP_ Contra-Capa_ com dedicatória







Descrição do Álbum:

"31 Creat Hymns - THE MORMON TABERNACLE CHOIR -
ROCK OF AGES -THE PHILADELPHIA BRASS EMSSEMBLE
AND PERCURSSION RICHARD CONDIE, CONDUCTOR "

Mensagem/Dedicatória:

« 10 de Maio de 1976
Salt Laty City - Utha

Aos meus queridos pais portugueses
Uma recordação de momentos maravilhosos
e inesquecíveis que passamos juntos nos templos
de Provo e Salt Lake. Estes discos contêm algumas
das músicas que ouvimos o côro do tabernáculo
cantar. Espero que cada vez que as ouvirem de novo possam lembrar deste nosso encontro.

Eu os amo de todo coração...até algum dia.

Seu filho
Paulo Périssé
»





As palavras…
Sei onde nascem
Sei onde param
Só não sei onde andaram.

Sigo as palavras até à origem
Como a descoberta da nascente dum rio
Percurso de décadas seguras por um fio
Que eu prendo no sonho naquilo que dizem.

Hoje abandonadas estendem-se ao olhar
Tento encontrar a viagem em repouso nesse chão de mar
Estas sentidas palavras que acabo de achar.

Devolvê-las a quem pertencem difícil  será, mas hei-de tentar…

LM

sábado, 2 de agosto de 2014

cardos



foto: luís castanheira

são cardos, Senhora, são cardos
nos  ombros espetados em pesados fardos
e um passo penoso pairando o destino
sobre os campos de pedra e a altiva serra
com frio que medra no vento que ferra
e o sonho voando dentro do abismo
este que Vós veis já desde menino

…e o rio não nasce no tempo escolhido. 

LM_ 30.jun.2014

segunda-feira, 28 de julho de 2014

in memoriam

foto: luís m castanheira
o mar foi o teu olhar
tua paixão
na pena do poema 
no coração
e a liberdade
fez-se verdade
na tua mão
cada palavra
vertida
sentida
no verbo amar

(para a Sophia, hoje no panteão)

LM_02.jul.2014

sexta-feira, 25 de julho de 2014

mãe...


mãe...


afecta-me os teus afectos
(porque lindos são também os fetos...)

- oh, mãe…!
dá-me outra vez
uma cama


e nela me deite, talvez...,
de vez…, 

por quem ama!



a casa fechada

luís castanheira_ "só as memórias habitam..."
memórias...
sempre as memórias
agitadas
ondas em vagas  
semeadas
no nosso mar 
interior 

e a nostalgia
a sangrar ...(em poesia).


quinta-feira, 24 de julho de 2014

infantado

luis m.castanheira_painel de azulejos_"mãos infantis"

mãos infantis plasmadas
em voos de sonho lançadas
crianças que hoje não são
ali prisioneiras estarão
em azulejos pintadas
aquelas pequeninas mãos.

hoje, não se sabe o que serão...

ou dos sonhos perdidos em vão.





quinta-feira, 17 de julho de 2014

sementes

ericeira_luís castanheira
poesia plantada em jardins de sonho e nada
voo fechado num abrir fundo da alma rasgada
e do cimo da montanha olho o vasto prado
mas só muito longe enxergo o verde esperançado

LM_


quarta-feira, 16 de julho de 2014

metamorfose

sofia almeida


sonho sonhado sonho encantado
sonho perdido sem ser nascido
sonho calado sem ser achado
sonho que tenho mesmo acordado
sonho detido e sempre sentido
sonho em ti sonho que nunca vi 

LM_


terça-feira, 15 de julho de 2014

mar

luís m castanheira
Mar…
Este sentimento
De ir e não estar
Pranto de um lamento
De quem não sonha amar
E preso ficou
Na imensidão de um só olhar.

(alguém que tanto pecou sem pedir perdão)

(Ao meu lado há uma troca de beijos
 e palavras sussurradas entre amantes
- a esperança em desejos)

LM_19.jun.2013



mãos

Mãos plasmadas, doces e delicadas
Mãos pequenas, livres e fadadas
Mãos criadoras de sonho e beleza
Mãos transmissoras dum interior de pureza
Mãos que se dão à ternura e ao coração
Mãos que formam e criam toda a paixão
Mãos suaves, abertas em voo de aves
Mãos de tesouros escondidos em caves
Mãos estendidas de fios cristalinos
Mãos ramificadas em cursos de rios finos
Mãos pungentes em música presentes
Mãos quentes nas carícias veementes
Mãos adoradas. Mãos por mim amadas. 

LM_Manhã, 15.abr.2013


a noite sem alvorada (noite calada)

Lisboa_Museu da Cidade_ luís castanheira
 I

No jardim junto ao passeio
há uma árvore de permeio
e no sopé junto à relva
estava um pardal adormecido
cabeça encostada, de pé e sem sentido
onde esperou a morte na noite treva

O cacimbo espalhava-se onde caia

e nas penas unidas mais arrefecia
num coração que não mais batia
o frio propagou-se à noite
e a noite ficou mais escura
numa tristeza que apagou
a beleza da verdura
como um açoite.

- Amanhã o dia cantará essa agonia!


(para a Sofia, que viu o mesmo que eu via

e o boss, já velhinho, a descobri-lo, num passeio,
na nossa companhia)

05abr.2014 – meia-noite

luís castanheira

II

Não mais te ouvirei cantar
oh pássaro da meia-noite
frio adormeceste ao luar
não mais voltarás a voar
noite varrida num açoite
já tuas asas fechadas
ainda jovens destinos
encontram-se agora paradas
em sonhos de cantos e hinos.

Tua cabeça erguida

virada ao céu sem medida
deixa pensar que a morte
ao levar-te desta vida
foi momento de má sorte
e ela ficou surpreendida.


Sobre o tapete verdejante

junto à árvore como amante
encontraste apoio santo
que consolou a agonia
dum fim que nada previa
onde a chuva é o teu manto.

…ou então carinhosa mão
te depositou no chão
num gesto de compaixão.

LM_06.abr.2014 - tarde


quinta-feira, 10 de julho de 2014

(cais das colunas)

(cais das colunas)
Cais das Colunas_Lisboa

Tanta burocracia e só a água escolhe o caminho mais fácil
A cinco metros ela é turva onde começa a margem e acaba o esgoto
Cidade grande para um rio tão pequeno
Mas lá bem no meio a água é dum azul pálido dos seus desgostos
Há uma cadeira uma mesa e uma sombra
Há uma paisagem uma brisa e um cigarro
Há uma cerveja um relógio e o meu amor à minha espera
E no entanto há um vazio...
Mas há no meu sangue a esperança desse rio 
Há um lugar que está marcado num nosso encontro
Há o amor há a vida e há a corrente do pensamento que galga 
cristas de ondas grandes que chocam com outras feitas por hélices
Há movimento e contudo eu estou parado
parado naquele dia em que aqui estivemos
Voltei no tempo e parece tudo igual a ontem
O mesmo rio com aspirações a mar
A mesma grade a limitar
Que as crianças aprendam cedo
Que há um salto possível de dar
Quando o desgosto sendo adulto pode provocar
Mas há uma ponte para os cépticos
E nem mesmo um Cristo de braços abertos
Os pode salvar quando se altera este equilíbrio
Braços pequenos para tanta gente
Gente que vai para não sei onde…
Gente que vem de onde eu não sei
Há qualquer coisa que eu queria ser
E é à procura desse saber
Que eu venho para aqui tentar sonhar
O que as pessoas hão-de fazer
Para descobrir uma forma de ser.

(quando as horas passam e se aproximam das dezanove
 Sonho de um rio à beira-mar numa cidade
 com muita merda mas linda vista do cais)


LM_Lisboa, 30.jul.1976 (muita coisa mudou desde então...)