domingo, 8 de junho de 2014

um adeus


fotos: luís m castanheira



Pela minha mão seguiste
Confiante, em dia triste
Para um fim longe de ti.
Foste meu companheiro
Numa vida por inteiro
E hoje, sozinho, não te vi...!
Dei-te tudo o que queria
No muito que sentia

Mas tu,
Deste-me um mundo de alegria

Deste-me tudo o que podias

Até no sofrimento que sentias

Mas também te dei a morte
(eu que amo a vida
mesmo estando perdida)
Neste dia de má sorte.

Meu doente e velho cão
Adormecido ficaste
Mas choro a minha decisão.


(para ti, Boss, que me deste TUDO)
Lm-31.mai.2014




Emoções…

foto: luís m castanheira


Brotam as emoções
em catadupa
partem-se os corações
e as lágrimas na cachoeira dum rio
aos olhos nascem em noite de frio.

Já nada as pára
ao cais nada as amarra
nada as pode deter
um aperto em garra
sentido em desespero
grito estrangulado.

É a morte expirada do sonho enforcado.

LM_26.jul.2013



emigração

Foto: luís m.castanheira


Rio de fogo estendido
Em rasgado voo planado
Pássaro branco perdido
Num horizonte amado.

Jovem ainda em viagem
Com destino incerto e sombrio
Rasgo de espaço sem paragem
Dum porto inseguro sem brio.

Mar a tocar o céu
Em noite escuro de breu.

Oh! Jovem sem pais
Avós e outros mais
Partiste só com as mágoas
Num caminho sem margens
Um destino no olhar
Perdido no verbo amar.

Oh! Jovem oráculo da verdade
Tanta saudade
Hás-de deixar
Presa à terra
E ao cheiro
Deste padecer sem luar.

Partes para terra fria
De gelo nos sentimentos
Emoções estranguladas
Nas tuas próprias razões
Já não há estrelas douradas
A guiar-te o percurso de anões
Dum horizonte esquecido
Na memória de menino ferido.

Lembras-te quando o ocaso
Aquecia o futuro do teu passo?

Eras criança com destino
Eras alegria todo o dia
Eras a mão guiada pelo chão
Eras tudo o que ainda não foste.
Ficavas preso ao deslumbre da noite
Sem medo do amanhã ainda cedo
Foste projecto e ambição
Foste o sonho grande num pequeno coração
Que batia sorrindo no carinho e paixão

Tanta emoção…

Hoje perdido olhas p’ra trás
E não vês o caminho de quem o faz
- Quem te levou ao momento
deste tamanho sofrimento?

(dia em que o T.C. chumbou a convergência das pensões)

LM_19.dez.2013



não vou


Ao lado do coração
Trago uma nova canção
Escrita em dias de vento
Com palavras esculpidas
Dolorosas e feridas
Que são o meu tormento

Foram cravadas por ti
Com os olhos que bem vi
Lançados como a flecha
Dos lábios ríspidos e secos
E na escuridão dos becos
Só vi as chispas da mecha

Não! não deixarei de ser o que sou
Por não ir onde não vou

Não!

Não é com a tua vontade
Que me obrigas a deixar
Este espaço de encantar

Não!

Não aceito tanta maldade!….

Fico onde estou…
e logo vejo aonde vou.

LM_(recente data)



Baile da solidão


Eh, fadista deste fado de bela vista
Tens a glória deste momento na velha pista
E no andar e no falar, estás p’ra amar
És um ‘pintas’ no gesto e no trajar,
Em boas fintas rodeias tudo com o olhar

Sentes o corpo em palavras a sussurrar.

Eh, fadista marialva feito Midas
Faroleias as viúvas mais queridas
Cantas estrofes de tabernas e cafés
Conversas de tretas e parlapiés.
E a troco de nada debitas lamirés.

Pois é, fazes-te à vida, alma ferida.

Pesam-te os anos e os enganos,
E a brilhantina escorre os cabelos
Já grisalhos, mas bom de vê-los
Calças de ‘jeanes’, camisa às cores
Dum amarelo berrante de dores
Um lenço preto escorrido e com flores
Sapatos rasos e deslizantes de alto brilho
E no pescoço, pouco escondido, dourado fio
Como o relógio, a bracelete e a pulseira
Dão à figura um marialva de cabeleira.

Fins-de-semana nas danças de salão

Espalhadas um pouco por toda a parte
Esse condão ‘engatatão´ da tua arte
Encobrindo palidamente a solidão.

Solto o salão aí vais tu dando uma mão

Lanças amores, pedes favores, apertas dores
Puxas pró tango várias estampas
De outros tempos e outras pampas
Ora dançantes, ora sentadas e alinhadas
O rouge intenso e baton vivo põe-nas coradas.

És bailarino, exímio, na escola de outras eras

Onde as horas não eram de tantas esperas
Ficou-te o ‘bicho’ enraizado dum pé de dança
Em qualquer baile, ou mera festa, desde criança

Mas esqueceste que tudo é feito de mudança

E agora trazes nos olhos a já pouca esperança.

Dás a perninha em qualquer baile

Rasgando o espaço desse cansaço
Saltas sem rede e avanças a cada passo
És uma estrada escura sem qualquer raill .

Nos intervalos bebes geladas umas ‘begecas’

E até pensas que vai ser fácil dar umas ‘quecas’
Lembras as noites e os bailaricos de S. João
O vinho verde a madurar sardinha e pão.

As matines, já não em boites ou cabarés,

São estas voltas uma constante troca de pés.
Repimpas firme uma silhueta de juventude
Lembrando os verdes anos muito amiúde

Na música ao vivo, soalho antigo, e já comido

E o jantar fica perdido e ouvido algo entupido.
Lá dás o corpo ao manifesto e sem protesto
És suave sombra a envolver o corpo delas
Mas ao deitar é que são elas.
Perdes as velas.
Dói-te a alma, os cansados pés e as costelas
Vês-te em alto-mar, num barco a naufragar
Sempre picado, sem sentinelas p’ra te acordar
Os pesadelos, tristes flagelos, dormem contigo
Feito peão deste destino bem à medida da solidão.

E, mais uma vez, dormes sozinho, como um mendigo …


LM_26/28.jun.2013



disperão



I

No olhar duma criança
há janelas de esperança
nos gestos acumulados
e abertos na lembrança
no sonho de seres amados
- …e o Mundo em mudança!


II

Pequenos passos são dados
duma fraterna aliança
à noite os gatos são pardos
mas não deixam de ser gatos
havemos de ter esperança
de não se aliarem aos ratos.

III

Ao colher uma flor
do jardins por onde passo
comigo levo esse amor
no gesto simples que faço.

Mas ao captar tal beleza

efémera na minha mão
fica-me a firme certeza:
mais belas são onde estão. 

LM_12.ago.2013



pardal

sofia almeida
destemido pardal
que à minha mesa vens comer
com a certeza que mal não te quero fazer
deixa-me dizer-te agora
que em breve me vou embora
e amanhã outra aventura hás-de ter.

LM_12.mar.2014



dêem-me rosas

foto: luís m castanheira

Dêem-me rosas, dêem-me prosas
Dêem-me sorrisos, dêem-me sisos
Dêem-me olhares, dêem-me mares
Até me podem dar beijos ou desejos
Dêem-me tudo o que quiserem (…)
Mesmo aquilo que já não querem
Só não me dêem penas, não me criem cenas
Não olhem parar mim com desdém
Não façam de mim ventrículo do além
Não sou uma alma penada, não sou quase nada
Sou uma pessoa aqui no meio do nada, parada
Á espera… de quem desespera…
Sou simplesmente o ar da montanha
Aquele que sopra com dor tamanha
Por cima da esperança, os lábios cerra
Morde a terra e rasga a serra no olhar
Para não gritar, e tudo em mim matar.

LM_4.jul.3013



Corpo e Voz


Queria casar estes versos com o mar
Mar do teu olhar e a musica juntar
Queria ouvir a tua voz cristalina de luar
A cantar…!
A Cantar… e deixar-me perdidamente
Embalar, no teu doce berço e ficar
E ficar…
Sempre perto, mesmo longe, sem estar
A sofrer na ausência do teu ser, por amar.
Essa canção já existe na minha mente
Eu oiço-a constantemente…
Só não sei onde estás neste momento
Mas ocupas-me, sempre, o pensamento.

LM_14.nov.2013



clausura


luís castanheira

Árvores em pedra moldadas
em interiores de jardins
(pátios de consumo e afins)
de geométricas figuras
mas inúteis nas frescuras
de verdes folhas cuidadas
mas sem sombras projectadas.
Dão beleza e ilusão
de natureza posta à mão
prisioneiras de caprichos
conservadas nos seus nichos
pouca terra e sem era
em voos sempre de espera
só o céu o seu limite
no olhar que se permite.
Podem ser belas, perfeitas
podem até serem escorreitas
mas falta-lhes a liberdade
de crescerem à vontade
sem entraves, puras na verdade! 

LM_‘Campera’, tarde, 27.ago.2013



Canção de amor

 Luís Castanheira
E toda a flor é bela
Independente do cheiro dela
Flor que não se cheira
Há-de haver quem a queira.

Há-de haver quem a queira
Há-de haver quem a ame
Flor desta roseira
Não deixes que alguém te trame.

Flor desta roseira
Tens o teu espaço devido
Não precisas de canseira
Para despertares o sentido.

Oh flor, oh meu amor
Oh flor linda de cor
Deixa espalhar o teu riso
Deixa, que eu não te piso.


E toda a flor é bela
Eu conheço uma flor
Que parecendo o rosto dela
Deixa-me perdido de amor.


Á noite penso bem nela
E o dia passo-o em furor
Só espero pintá-la em tela
Guardá-la no meu calor.


Oh flor desse canteiro
Espera por mim com ardor
Regar-te-ei por inteiro
E serei o teu senhor.

Não hás-de estar sozinha
Levar-te-ei ao altar
E quando fores velhinha
Eu quero aqui estar.

LM_22.jan.2014





apaga as memórias

Toronto (Canadá) _ sofia almeida
Apaga as memórias que te dei
Todos os sinais e magoas que deixei
Rasga o passado e morte em mim
Deixa-te levar em vendaval
Segue essa estrada sem fim
Vai para longe, não olhes os teus passos
Da noite e do dia perdidos em cansaços
E perdoa-me tanto sofrimento
Por em mim cativar o mal
Eu deixarei esta obra destrutiva
Que em mim assenta e perturba
E que não fique pedra sobre pedra
Varrida por maré obsessiva.

LM_(meu fragmento em papel de tabaco, sem data)



despeito


Ah, se tu soubesses, Flora
O quanto o meu coração padece
O quanto a minha vida esmorece
Tu não te tinhas ido embora
Tu tinhas ficado presente
Tinhas dito a toda a gente
Que o amor da tua vida
Era eu, minha querida.


Embora estivesse ausente
Eras tu sempre lembrada
Eras a mais do que tudo sonhada
Em cada beijo, adorada
Em cada azeda palavra trocada
Uma compreensão elevada.

Mas foste para bem longe
Para onde te não posso ver
Agora que te não posso ter
Sei o quanto é, e se pode sofrer.


Vivo aqui como um monge
Rezando até mais não poder
Para que tu voltes a ser
Minha e em mim hás-de caber.


- E se, mesmo assim, não quiseres vir
Vai p’ra puta que te há-de parir!

LM_09.jul.2013



dormir

luís castanheira
deixa-me dormir
e nada ver
nada ouvir
nada ter

deixa-me em silêncio
adormecer...

não quero sentir
o teu perder.

LM_






mosquitos

A noite caída em bebedeira
Dos mosquitos de sangue sedentos
Vozes de queixumes e lamentos
Em sons gritantes de feira.

(fragmento, na margem direita do rio kwanza)
LM_4.jun.2013




doença

Cercado no olhar o espaço diminuto do estar
Espaço contemplado em vazio quebrado
Sombras diluídas confusas e esquivas
Bailarinas duma ópera imaginária, escrita no ar
É o sol penetrante vindo para jantar
Cedo aqui chegado sem convite e convivas.
Mas ainda bem que entrou…
Pelas persianas meio corridas da janela imperfeita
Nas suas ranhuras simétricas em que a luz fura
Lembrando que é dia e eu cá estou
Sozinho comigo em noite por dentro dessa maleita
Que é pensar só nos efeitos da cura.
E qual é a doença aflitiva e rasteira presente?
É saber que outro dia à noite acresce
E a esperança morre cedo dentro da mente
Não deixando espaço no amanhã da prece. 

LM_30.jul.2013


o corpo

Quando morto estiver meu corpo
Não pensem nele com desgosto
Relembrem a minha vida de gosto
E não ao choro do vosso rosto.

Agora, descanso a olhar

Tudo que para trás ficará
E o que vale a pena guardar
Foi a capacidade de vos amar
E isso sempre convosco estará.

LM intemporal


fim de praia

Era uma tarde de fim de praia e maresia
principio duma Angola quase liberta
e a independência dada como certa
onde a alegria nos rostos crescia
esperança que então renascia

País feliz de regresso à sua raiz

raças cruzadas que a história quis
vivências de alguma harmonia.
E a jovem de cor, linda como a flor
que lhe deu sabor, disse-me com ardor
que bonito eu era e gostava de ter
um filho comigo mesmo a valer.

E eu branco no olhar que sobre mim desceu

sem pestanejar, sorri para dentro
e... por um momento senti-me encantado
feliz nesse fado e não disse nada.

Tudo se perdeu… 

LM_2.jun.2013




amor, meu amor...



amor meu amor meu doce sorrir meu canto
minha esperança meu doce sentir
minha paixão em viver meu parto sem dor
minha brisa em flor minha saudade ao partir
amor meu amor é em ti que eu fico 
é em ti que renasço é em ti que eu vivo
é em ti que adormeço e em ti permaneço
é em ti que suspiro por cada momento
é em ti que eu ouço a brisa do mar
é em ti que amanheço é em ti que viajo
no tempo e no espaço e em ti me acho
é em ti que acordo e acordado desfaleço
amor meu amor minha estrada sem fim
meu bosque cerrado   com cheiro a jasmim
minha musa minha luz meu luar de ternura
meu berço embalado meu poema cantado
em voz sublime bem perto de mim
meu regaço aberto num porto de abrigo
de destino traçado e enfim   repousado
amor meu amor

LM_21.Jun.2004



cama de orvalho

I
Deitas-te numa cama de orvalho
Num chão feito de emoção
Que me parte o coração
Entrego-te o consolo no que valho
E aqueço a tua mão.
Soltas as pontas do desgosto
Amargurada, triste e desolada
Percorres a noite sombria e calada
Largando silêncios de lágrimas no rosto.
Adormeçes, enfim, quente por fora
Mas não sei o que sentes por dentro.
As minhas mãos acolhem-te num manto de esperança
De que o amanhã seja feito de bonança.

II

Deitas-te em cama de orvalho despida
De lágrimas vertida em assombração
E as nuvens carregadas em prostração
Vagueiam o teu rosto na temporal distância sentida.
Um choro feito emoção rasga-me o coração
Soltas as pontas do desgosto e desilusão
E eu fico à escuta na distância curta
Em almofadas ora secas ora molhadas
Qual ladrão que invade e furta
Deixando para trás feridas não saradas.
A minha mão na tua tenta aliviar tanta tristeza
Mas a distância curta não cria a perspectiva
Com que deveria olhar mais intimamente a tua solidão cativa
E assim não posso mostrar-te o Mundo da real beleza.

LM_Jan.2013


perdão

Amargurada, triste e desolada
Sentes as pontas do desgosto
Que agarro com a minha mão
Rasgo o peito na dor de te perder
E tento a todo o custo tirar-te o padecer
Dizer-te como és por mim amada
Afagar o teu lindo rosto
E em tudo te pedir perdão.

LM_ sem data


tristeza

Meu permanente embaraço
em que quase nada faço
esperando por ti a cada passo
e o Mundo a fugir-me neste abraço
de te ter ao pé de mim
a adivinhar um triste fim
e nada fazer por ti, enfim…

Alimento a esperança

que amanhã acordes
na vontade de acreditar
que podes fazer a mudança.
dar um passo.
Saíres desta triste desistência.
Abandonaste-te a esta constante demência
que é estares numa solidão interior
presa á noite quando é dia
a dormir constantemente
duma forma estranha e permanente
e me deixa num verdadeiro pavor.
Já não sei o que fazer
entre o estar e o ser
a presença pouco ajuda
para sentires forte muda
e levar-te presa à vida e ao ser.
Não há palavras que ajudem a mudar
o que não se quer
tomara eu ter um dom
de dar-te tudo o que é bom.
Esse passo que tens de dar
seria a forma de alegrar
um pouco este sentido
que é teres-me como amigo.
Dou-te espaço na presença
dou-te apoio no combate à doença
na mudança e firmeza,
na vontade e na certeza
- só não te dou a força necessária à tua crença
que só tu a podes ter!

LM_Fim de tarde, princípio de esperança 15.abr.2013



Degraus cruzados

Passaste por mim e sorriste
Cheia de encanto e frescura
Vinhas ainda longe e me viste
Olhar para ti com ternura.
Vi-te seguir rua fora
Num passo miúdo e certo
Pena tive de ires embora
Não ficares mais tempo perto.

O sonho desse momento

Criado no imaginário
Gravou-se no pensamento
Como água no calcário.

Dessa água que bebi

Nasceu um amor por ti
Matou a sede que tinha
Na paixão da sede minha.

Procurei-te com o olhar

No caminho que seguias
E na esquina ao virar
Senti que não te perdias.

Já sabia o que pensavam

Corações que se cruzavam
Presos meus olhos ficaram
Silêncios aos teus que falaram.

Mais tarde voltei a ver-te

Em matiné combinada
Na despedida desejei ter-te
Para sempre como amada.

LM_16.maio.2013 (aniversário)


“Deolinda”

foto: sofia almeida

Deolinda, menina, deusa linda
De oitenta e três anos e criança ainda
No teu rosto esculpido de destino lavrado
Em socalcos profundos de rugas rasgado
Há marcas deixadas do tempo passado
Há sonho criado de décadas espelhado.
És a beleza feita ternura
Que no olhar já baço perdura
És a voz suave de ave canora
És a velhice em bondade pura
Na esbelta e frágil figura
Que me entras na alma em bendita hora.
És Mulher passado. És Mulher futuro
És o universo dum berço seguro
Onde menino me deito sem medo do escuro.

(dedicado ao dia int.da Mulher) 

LM_8.mar.2013


gémeos

Gémeos são os lagos do teu olhar
Castanhos/dourados, meigos e profundos
Há neles sempre um Amor a transbordar
Irrigam o melhor dos nossos dois mundos.

(a pensar nos olhos repousados do amor adormecido)

LM_14-03-2013


já "velhos"

Costas encostadas em formas perfiladas
Às paredes dos prédios pregadas
Permanecem homens de rostos fechados
Em silêncios podres de vida roubados.
São sombras esculpidas em olhares vazios
Manchas de escombros de cheias nos rios
Perdidos nas margens sem pontes presentes
Que formem o salto e não fiquem dementes.
Roubada a esperança num amanhã seguro
Enfrentam a crise em estado maduro
Ficam pendurados em bóias lançadas
Dum tempo passado e já sem futuro
Arrastam as pernas de vozes caladas
Sem revolta dum grito sobre facas afiadas.
Ei-los que sentem nos ossos cansados
Tamanhos tormentos no fim da tristeza
Podres os sentidos de forte pobreza
Caindo em frente como fuzilados
Sem ver o inimigo, de olhos vendados
Aquele que se ri na ganância do lucro
Contando a fortuna à custo do justo.

LM_Abr.2013


Amor e solidão

luís castanheira

Pega na minha mão
Anda comigo

Vamos percorrer um chão antigo
Cantar uma velha canção
De tristezas despir o coração
Na alegria de estar contigo
Vamos percorrer a distância
Dum caminho por destino
Cantaremos o nosso hino
Em memórias de infância.
Juntos seremos fragrância.

Pega na minha mão
Anda comigo

Olha o Sol nascido para te ver
E sentir-se feliz por existires
És o objecto da luz a envolver
O coração que tanto quero ter.
O ponto da nossa chegada
É um recomeço de alvorada
Há sempre uma nova partida
Quando a alegria é sentida.
Faremos esse passeio
Como uma nova parada
Mais uma batalha vencida
No meio de tanto receio. ´

Pega na minha mão
Anda comigo

Deixa-me falar-te dum sonho antigo
Do amor construído num vale fecundo
Imenso e tão cheio como o Mundo
Aquele que sinto por ti, um velho amigo.

Pega na minha mão
Anda comigo

É dia de esperança em cada passo
Teremos os olhos postos na lembrança
De outros dias felizes e de bonança
Que percorremos já ontem sem cansaço.

Pega na minha mão
Anda comigo

Vem ver o mar a reflectir-se no teu olhar
As ondas brancas espairecerem-se no areal
O amanhã tornar-se hoje bem real
Ter a certeza que sem ti não sei amar.

Pega na minha mão
Anda comigo
Minha querida

Vamos fazer esta curta caminhada
É mais um dia numa vida partilhada
A somar a outros com sorriso na chegada
E não daremos por perdida tal jornada.
Um dia passa bem depressa
O arco-íris da vida não regressa
Não daremos por perdida tal jornada.

LM_4_jan-2013