segunda-feira, 28 de julho de 2014

in memoriam

foto: luís m castanheira
o mar foi o teu olhar
tua paixão
na pena do poema 
no coração
e a liberdade
fez-se verdade
na tua mão
cada palavra
vertida
sentida
no verbo amar

(para a Sophia, hoje no panteão)

LM_02.jul.2014

sexta-feira, 25 de julho de 2014

mãe...


mãe...


afecta-me os teus afectos
(porque lindos são também os fetos...)

- oh, mãe…!
dá-me outra vez
uma cama


e nela me deite, talvez...,
de vez…, 

por quem ama!



a casa fechada

luís castanheira_ "só as memórias habitam..."
memórias...
sempre as memórias
agitadas
ondas em vagas  
semeadas
no nosso mar 
interior 

e a nostalgia
a sangrar ...(em poesia).


quinta-feira, 24 de julho de 2014

infantado

luis m.castanheira_painel de azulejos_"mãos infantis"

mãos infantis plasmadas
em voos de sonho lançadas
crianças que hoje não são
ali prisioneiras estarão
em azulejos pintadas
aquelas pequeninas mãos.

hoje, não se sabe o que serão...

ou dos sonhos perdidos em vão.





quinta-feira, 17 de julho de 2014

sementes

ericeira_luís castanheira
poesia plantada em jardins de sonho e nada
voo fechado num abrir fundo da alma rasgada
e do cimo da montanha olho o vasto prado
mas só muito longe enxergo o verde esperançado

LM_


quarta-feira, 16 de julho de 2014

metamorfose

sofia almeida


sonho sonhado sonho encantado
sonho perdido sem ser nascido
sonho calado sem ser achado
sonho que tenho mesmo acordado
sonho detido e sempre sentido
sonho em ti sonho que nunca vi 

LM_


terça-feira, 15 de julho de 2014

mar

luís m castanheira
Mar…
Este sentimento
De ir e não estar
Pranto de um lamento
De quem não sonha amar
E preso ficou
Na imensidão de um só olhar.

(alguém que tanto pecou sem pedir perdão)

(Ao meu lado há uma troca de beijos
 e palavras sussurradas entre amantes
- a esperança em desejos)

LM_19.jun.2013



mãos

Mãos plasmadas, doces e delicadas
Mãos pequenas, livres e fadadas
Mãos criadoras de sonho e beleza
Mãos transmissoras dum interior de pureza
Mãos que se dão à ternura e ao coração
Mãos que formam e criam toda a paixão
Mãos suaves, abertas em voo de aves
Mãos de tesouros escondidos em caves
Mãos estendidas de fios cristalinos
Mãos ramificadas em cursos de rios finos
Mãos pungentes em música presentes
Mãos quentes nas carícias veementes
Mãos adoradas. Mãos por mim amadas. 

LM_Manhã, 15.abr.2013


a noite sem alvorada (noite calada)

Lisboa_Museu da Cidade_ luís castanheira
 I

No jardim junto ao passeio
há uma árvore de permeio
e no sopé junto à relva
estava um pardal adormecido
cabeça encostada, de pé e sem sentido
onde esperou a morte na noite treva

O cacimbo espalhava-se onde caia

e nas penas unidas mais arrefecia
num coração que não mais batia
o frio propagou-se à noite
e a noite ficou mais escura
numa tristeza que apagou
a beleza da verdura
como um açoite.

- Amanhã o dia cantará essa agonia!


(para a Sofia, que viu o mesmo que eu via

e o boss, já velhinho, a descobri-lo, num passeio,
na nossa companhia)

05abr.2014 – meia-noite

luís castanheira

II

Não mais te ouvirei cantar
oh pássaro da meia-noite
frio adormeceste ao luar
não mais voltarás a voar
noite varrida num açoite
já tuas asas fechadas
ainda jovens destinos
encontram-se agora paradas
em sonhos de cantos e hinos.

Tua cabeça erguida

virada ao céu sem medida
deixa pensar que a morte
ao levar-te desta vida
foi momento de má sorte
e ela ficou surpreendida.


Sobre o tapete verdejante

junto à árvore como amante
encontraste apoio santo
que consolou a agonia
dum fim que nada previa
onde a chuva é o teu manto.

…ou então carinhosa mão
te depositou no chão
num gesto de compaixão.

LM_06.abr.2014 - tarde


quinta-feira, 10 de julho de 2014

(cais das colunas)

(cais das colunas)
Cais das Colunas_Lisboa

Tanta burocracia e só a água escolhe o caminho mais fácil
A cinco metros ela é turva onde começa a margem e acaba o esgoto
Cidade grande para um rio tão pequeno
Mas lá bem no meio a água é dum azul pálido dos seus desgostos
Há uma cadeira uma mesa e uma sombra
Há uma paisagem uma brisa e um cigarro
Há uma cerveja um relógio e o meu amor à minha espera
E no entanto há um vazio...
Mas há no meu sangue a esperança desse rio 
Há um lugar que está marcado num nosso encontro
Há o amor há a vida e há a corrente do pensamento que galga 
cristas de ondas grandes que chocam com outras feitas por hélices
Há movimento e contudo eu estou parado
parado naquele dia em que aqui estivemos
Voltei no tempo e parece tudo igual a ontem
O mesmo rio com aspirações a mar
A mesma grade a limitar
Que as crianças aprendam cedo
Que há um salto possível de dar
Quando o desgosto sendo adulto pode provocar
Mas há uma ponte para os cépticos
E nem mesmo um Cristo de braços abertos
Os pode salvar quando se altera este equilíbrio
Braços pequenos para tanta gente
Gente que vai para não sei onde…
Gente que vem de onde eu não sei
Há qualquer coisa que eu queria ser
E é à procura desse saber
Que eu venho para aqui tentar sonhar
O que as pessoas hão-de fazer
Para descobrir uma forma de ser.

(quando as horas passam e se aproximam das dezanove
 Sonho de um rio à beira-mar numa cidade
 com muita merda mas linda vista do cais)


LM_Lisboa, 30.jul.1976 (muita coisa mudou desde então...)