quinta-feira, 25 de setembro de 2014

na minha aldeia

a minha aldeia é uma teia
de gente linda e gente feia
há uma rua, única rua 
a dividir toda a ternura

e essa rua  é quase crua
deixa nos lábios a amargura
desses teus beijos
soltos,... e em desejos
mas separados da minha boca
longe da tua, .....seca e oca

há uma rua 
que não é minha
e nem é tua
e nos desalinha
qualquer olhar
mesmo a passar

há gente linda e gente feia
e nessa teia, há muitas línguas
pois nessa rua há quem semeia
mesmo às minguas
a maledicência
como referência

a minha aldeia é triste e feia
mas cá,... onde tu moras
torna-la linda, bela e cheia
como a colmeia, ...como as amoras.






terça-feira, 23 de setembro de 2014

...o vazio

negativo foto: luís castanheira

...e de pé fica o vazio


o homem olhava o mar 

sem o ver
sem perceber
o homem procurava o ar
sem o sentir
sem o cheirar
o homem sentia a dor
com ardor
com terror
o homem perdia a esperança
dura hora
em demora 
o homem só queria ter
o mesmo dia
a renascer
o homem só queria olhar
aquele rosto
- lindo rosto - 
o homem só queria sentir
o seu amor
o seu calor
o homem só queria ver
novamente
docemente
permanente

a companheira acabada de perder...

e este mar...
que tanto lhe deu
agora veio tirar

neste mar...
onde a mãe morreu
para a filha salvar

(ontem, um alto preço a pagar.)



domingo, 21 de setembro de 2014

mar a dentro

foto:luís castanheira


a espera dia após dia

da chegada sem partida
numa praia sem medida
filhos que a noite perdia
corpos que o dia não via.

(já nada mais se faz esperar...)






sábado, 13 de setembro de 2014

só com o mar

foto: sofia almeida

na tarde cansada
caída
a tarde das tardes
vivida
com sopro de tempo
varrido
e um choro de sombra
tingido.

o ar ensopado

do mar
as ondas batidas
no ar
e no horizonte
o luar
com cheiro perdido
ao chegar.

as horas raiadas

a passar
pelo corpo sentado
na areia
e a dor mergulhada
no olhar.

o homem perdido

ao achar
a solidão consigo
a navegar. 

(inspirado num poema da Sofia, in: Jardim de Palavras)

foram dois fins-de-tarde, na praia
onde, sozinho o via....e este homem sofria.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

raízes



foto sofia almeida
raízes

onde estão minhas raízes
onde estão
a prenderem-me ao chão?

agora que o voo é solto
a terra só me quer morto.

10.set.2014

terça-feira, 9 de setembro de 2014

promessas...

se tivesse muito dinheiro
falava contigo primeiro
comprava-te a felicidade
toda junta, por atacado
dava-te um novo fado
datado mas sem idade.

construía uma nova ilha
onde a memória fosse filha
dum passado arredondado
de caminhos sem esquinas
as palavras fossem finas
num presente torneado.

ai, se tivesse muito dinheiro...
comprava-te o mundo inteiro
nem as pedras da calçada
nem a relva do jardim
teriam queixas de mim
ao pisá-las em danças da alvorada.

ai, se tivesse muito dinheiro...
transpunha o rio num cacilheiro
ao encontro doutra margem
e de braços bem abertos
eu enchia-te de afectos
até o coração ter paragem.

ai, se tivesse muito dinheiro..
descobria-te pelo cheiro
que largasses ao redor
não precisava de pensar
que o sonho é criar
e não em ganhar bolor.

- ai, se tivesse muito dinheiro...
esquecia o amor primeiro
perdia-me só com o cheiro!

9.set.2014




terça-feira, 2 de setembro de 2014

fora de tempo

não sei 
o sentido que hei-de tomar...
se hei-de partir ou ficar.

a dúvida é escolher

onde gostaria de estar
e não perder
nada do que me fez amar.

mas sei

para onde irei
se este lugar morrer em mim
vestido com a dor desse fim.

(hoje,  uma  amiga  disse-me

 que tinha cancro desde Outubro
e estava enfrentá-lo com alegria)

porque será que a poesia não surge em dias de alegria?


lm.-02.set.2014