sábado, 8 de agosto de 2015

Exéquias da rosa







Luíz Fernando Regalheiro Henriques




Pétalas de neve poisam sobre o teu corpo ora adormecido
Na hora escolhidas pela singela e simples beleza
Como a vida que tiveste, espelho agora quebrado
São amores que levas de quem outros amores espalhaste
E aquela ex-aluna expressava-te a sua serena homenagem:
“quero uma rosa simples porque também ele era uma pessoa simples”.

Meu amigo,
Como eu gostaria de ainda poder contar contigo…
Dizer-te o quanto é sentida esta ausência que tanto me aflige
Contar-te dos meus sonhos, aqueles que não pude partilhar
Ouvir o que terias para me enriquecer
Falarmos de tantas coisas que ficaram por dizer… 
(Da música, da poesia, dos animais ou dos cactos)
Mas o tempo e a distância acabaram por as perder
 
Porém, ouvi o teu coração.

Chamei-te Monge porque assim era a tua pureza
Mas Cuidador com toda a certeza era e foi a tua missão
Essa missão cumprida até à exaustão.

Descansa agora porque partiste em paz.
(homenagem a LUÍS FERNANDO REGALHEIRO HENRIQUES)
N. 1944.Nov.10 - F. 2015.Jul.20

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

leve como o ar que respiramos

meu amor

queria escrever-te uma canção
simples, doce, única e cheia
que cantasse para nós esta teia
ligando o amor de mão em mão

meu amor

como é brilhante a fantasia
de caminhar entre as estrelas
devorando longas distâncias
e olhar só para ti, sem vê-las
só em ti mergulhar o meu olhar
nesta solidão nossa a vaguear
nesta procura incessante de te amar

oh, como seria belo tal acordar
na manhã do nosso contentamento
no espairecer do calor de tanta cor
no cântico silvestre duma ave
ou no riacho incessante e cristalino
dos teus olhos nos meus a mergulhar

hoje, reparo em ti como da primeira vez
em que te vi:  serena, altiva e cativante
como só pode ser o desejo dum amante

porém, dessa música imaginaria nada sei
e da letra a escrever nem um refrão
sai da minha mão, apesar desta paixão
na voz embargada de emoção, calam-se
os sons, no branco papel da criação
restando o silêncio ente nós como lei

meu amor 

fica só esta minha intenção tão leve
como a brisa a refrescar a tarde quente
ou o cair de uma folha na suave neve
de a ti chegar o que o meu ser sente.



setenta anos

6 de agosto

fazes anos, meu pai, amanhã 
num dia que para ti seria alegria
mas para outros já amanhã 
não haveria. lembro-me sempre
e em cada ano fico alegre e comovente
mas também triste por teres nascido
na data em que o mundo parecia perdido.


crianças de cristal

terra do sol nascente
foste poente
na loucura de muita gente.

quantas crianças de cristal
desapareceram nesse vendaval?


outro sol

o sol brilhante faz-me lembrar outro amante
aquele que olhando a terra queimada
só vê a ausência volatilizada da sua amada
na penumbra nuclear devastadora e penetrante.


hiroshima_nagasaki

amanhã, 
seis de agosto
setenta anos já passados
e no meu rosto
há ainda cicatrizes 
de outros.