quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Lisboa


fotos LuísM



Olá, Lisboa 
mulher sonhada
e inventada
em cada hora 
em cada rua
no som que ecôa
doce pregão
de uma varina
e o ganha-pão.

E o teu cheiro
são especiarias
do oriente
e outra gente
que degustam
o teu sabor.

E a luz que fura
branca de lua
passa por dedos
de persianas
e nas janelas
entre vielas
tão floridas
e cores tão belas.

A ti, Lisboa
eu canto 
a poesia 
das tuas águas 
e da maresia
desse teu rio
um quase mar
tapando o frio
sereno lar
ao teu olhar
que te embala
e a dor cala.

É teu o fado
na voz só tua
em cada praça
em cada dia
em cada rua.

Navegadora
nos sete mares
e quase à toa
descobridora
doutros olhares.

É teu o sonho
no achamento
acolhedor
de outros povos.

E foi por ti
e a ti deu nome
que Ulisses
quase ficou
preso ao encanto
e se demorou.

Olá, Lisboa...!








segunda-feira, 24 de outubro de 2016

ir e voltar



venho
dum país inventado
onde o mar é oceano
e o sonho foi castrado

venho
dum século e dum ano
onde se sentia o receio
de viver em pobre meio

venho
dum pobre povo perdido
onde a liberdade era mito
no horizonte escondido

e parti
a navegar a lonjura
a descobrir a doçura
e conhecer amargura

porquê não sei o que faria
noutra qualquer harmonia
que não o círculo perfeito

um pouco de terra e mar
com ternura no olhar
e um certo sabor a sal

e regressei 
aonde parti 
mas era outro
que nasci

um impensável desenho vivido

em mapa escrito na pele
rasgado em pássaros de mel
e um rio cantado ao ouvido

...de permeio 
um mundo a traço cheio... 

mas repartido ao andar
entre culturas e povos
de países velhos e novos
há esse imenso mar
que de mim faz de um outro
e muito lugar.



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

tu, alegria



era manhã e tardava
era dia e escurecia
era fome que calava
era sonho e alegria
era um matar do dia
era o desejo
era o beijo
era tudo e se perdia
era o sol que se escondia
era a saudade que via
era tudo que antevia
era a memória futura
era passado e frescura
era o rio que galgava
era a margem que apertava
era a vida que escorria
era... e só a morte temia.

hoje
tu és a minha companhia.



quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Aleppo

foto web


Plantei palavras em gritos de ternura
que só os olhos cerrados não ouviam
as minhas mãos em busca as erguiam
no sonho de um dia abraçarem o mundo.

Mas do céu cairam bombas de amargura
e a morte tornou a cidade em sepultura.

Já o tempo varre o fruto apreciado
e a árvore despida de sentimentos
vê um povo quase todo dizimado.


sábado, 1 de outubro de 2016

beijos amargos

(porque os tempos mudam mas as mentalidades perduram...)

os tempos mudaram e às mulheres
já os beijos não são só roubados;
são sequestrados ou assassinados, 
outras vezes em cacos estilhaçados 

às mulheres já não se bate só com uma flor,
bate-se com o ferro de engomar,
de qualquer jeito, com o que estiver à mão...

quem é que a mandou amar;
de quem é a culpa de ter filhos;
ter de trabalhar, em casa e... por aí fora;
de andar cansada de tanto transporte; e
tantas horas perdidas, no corpo sentidas...?

quem tem de aturar o chefe;
homem, pois claro, que passa a vida a espreitar as oportunidades; e a ver se pesca em águas paradas?

quem tem de contar o magro salário, chegar ao fim do mês e pouco dever?

quem tem medo de perder o emprego por ter nova gravidez?

- ai se descobrem, vou p'ro meio da rua! 

- e logo agora, com esta "sorte" de marido, tanto tempo desempregado,
aos caídos, já sem subsídio?

- e tem sido tão difícil aturá-lo...

- agora dá-lhe p'ra beber, 
não sei onde vai arranjar o dinheiro,
más companhias, lá isso ele tem...
mas se o deixo, vai atrás de mim
até ao inferno  - como se eu não vivesse já no inferno -, 
e tudo pode acontecer...!

- mas que triste sina a minha;

a minha mãe é que tem culpa disto tudo:
pariu-me e fui atirada para esta vida,
sem poder escolher;

- agora, que futuro poderei deixar aos meus filhos?

- olhos-os e revejo-me neles, como me revejo na pobreza que sempre me acompanhou;

- cresci no meio de tantos irmãos, 
alguns foram ficando pelo caminho,
que a fome era uma barreira;

- hoje desabafo, melhor..., hoje grito,
porque no peito dorido nada mais há.

nem as telenovelas e o raio que os parta já me servem de consolação,
onde é que eu tenho tempo p'ra me sentar?

- deito-me p'ra descansar, 
mas a noite também é um pesadelo!

parada
 entre sombras
 na curva da estrada
 aguarda 
 por quem não chegará.