quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Uma simples carta



Oh, minha mãe
Minha mãe
As dores que o Mundo tem
Foram as tuas dores
Também.

Minha mãe, 
Se hoje te pudesse dizer
O quanto te quero bem
Não haveria mais tristeza
Nos teus olhos de princesa
Aqueles que me viram nascer.

Mãe
Minha mãe
Só agora na ausência
Eu posso compreender
O quanto fizeste por mim
Ao dar-me 
O que eu nunca te dei.

Como fui tão egoísta
Ao querer tudo p'ra mim
Receber e pouco dar
E calar
Quando te poderia Amar?

Era o teu filho querido
E tanto era o orgulho por mim
Que não vias outra coisa
Além do que ficava em ti.

Viveste p'ra me criar
E pouco te pude abraçar.

Hoje
Olho o tempo da manhã
Vejo como jamais o verei
E recordo os teus olhos
Doces
Na ternura que perdi.

São os teus olhos 
Mãe
Que então herdei de ti
Que hoje te olham
Nos olhos da minha filha.

Esta carta
Mãe
Fez-me bem
Falei-te 
Do que nunca te falei
E tanto me comovi...
Como se agora o tivesse feito.

("um homem não chora"... enquanto não é hora)

Até um dia...
Mãe
Ele está cada vez
Mais perto
E é já longo
Tão longo...
O nosso desencontro.

( Dezembro é o teu mês
de ventura e desventura)


domingo, 27 de novembro de 2016

corpos à venda

Hera_deusa grega


de tanto querer
o desejo
morre ao nascer
e o fim
não são os meios
mas os anseios.

estátuas gregas
de mármore deitadas
poisam no jardim
em sonho gelado
e cheiro a jasmim.

já a noite avança
presa ao luar
e o olhar de amantes
toca-se sem se dar.

e só em plena manhã 
de sombras e paixão vã
estendem os braços em verde 
cama, beijando os dias da sede.

.......

o amor, esse dar e receber
não pode ter um só querer...!




sexta-feira, 25 de novembro de 2016

o abismo



foto LuísM

andam gaivotas no meu voar
brancas plumas, junto às dunas
e o mar cansado, espuma de raiva
contra os rochedos, a causar medos.

olho o abismo, de tão perto estar
sinto o tormento, d'ele me olhar.




pássaro ferido

ByThau Blog


(25. nov. _a vítima mulher)

este é o tempo
este o lamento
solto e escorrido
no pensamento
pássaro ferido
no chão caído.

entre paredes
mesmo na rua
há uma vida
em perigo 
ou insegura.

"trezentas e 
oitenta
mulheres
morreram
em dez anos 
vítimas 
de violência 
doméstica.
(e têm nome)"

e cada vida
e todas elas
já são demais.
(e tinham vida)

não serão mães
filhas, irmãs
não mais...
deixaram filhos
deixaram pais.

dizem que o ciúme
é causa primeira
para tamanho crime
como se alguém
fosse de alguém.

um só gemido
fraco que seja
deixa o mundo
algo perdido.

(todos temos direito à vida,
com ou sem amor)



terça-feira, 15 de novembro de 2016

ensaio sobre o vazio

foto Luís

(poema de caminho livre)

ensaio sobre o vazio

é tarde, amor
não venhas de passos rasos
a varrer a ausência das sombras
e olhar meus olhos sem os ver.

abre-me, antes, a madrugada
com chaves de ouro, filtrada
nas cortinas da esperança.

no meu leito estendi as mais
caras mantas de cetim
para deitares as nuvens
do meu ciúme sem fim.

acalma-me esta angústia
destilada e não me deixes
beber tão acre dor.

o dia promete ser lento
e caminhar por alamedas
de intensos odores.


e se quiseres voltar
vem-me buscar

vem e abre-me as pálpebras
seladas, com teus beijos
na húmida lembrança
na suave carícia
da pétala orvalhada pela brisa
do amor
imaginário ou real.

hoje espero-te como nunca te esperei
se é que algum dia por ti esperei
talvez tenha só sido o desejo de querer ter sido...

não tenho certeza de nada e
nada, nada chega a ser
o que tanto queria ter
a ti
como se o universo fosses tu
no vazio que há em mim.

é tarde, amor
mas cedo se torna
ao que nunca existiu.

e o tempo está a meu favor
o tempo e o espaço, coisas
que não me faltam
e a espera é um lugar
onde ninguém se quer sentar
por isso está vago
só eu sou candidato
só eu e mais a minha sombra.

e se não for tarde, amor
e cedo também
tras-me o primeiro beijo
para poder recomeçar
... ou a ti inventar.

sábado, 12 de novembro de 2016

Undine/ou tinha de ser assim...


Undine_Arthur Rackham
(amor de então ou ondas de paixão)

tanto mar, tanto mar
a nos separar...
e o teu nome nos lábios
ondina, sempre a bailar.

era o tempo a cacimbar
tempo de prece no olhar...
à espera do milagre
que tardava em chegar.

veio, qual deusa
mitológica
rolando a beleza
p'ra desassossegar.

cada noite estendida
riscava o seu nome
desenhado em esboço.
sonhado que era
o sonho de tê-la
comigo escondida.

quase via os beijos
com outro trocados
no quintal ao lado
do lado errado.

imaginava as ondas
gigantes de paixão
essa rebentação
que me encharcava
no ciúme do leito
de muralha feito.

eram noites sentidas
mas ao outro dia
ao vê-la, lavava as feridas.

os anos passaram ...
e os putos que éramos
marcados ficaram.

declarei-lhe amor
antigo de então e
sempre renovado
pois com o meu amigo
tudo tinha acabado.
(foi só aquele verão)

falei-lhe do meu ódio
ao robert redford
por o meu vizinho
(esse amigo zé)
ser-lhe tão parecido.

e ela respondeu-me:

- porquê não me disseste
que gostavas de mim?

(que importava agora, se o mar era chão ... )


sábado, 5 de novembro de 2016

líderes...

Asma al-Assade, "Rosa do Deserto", primeira dama syria

como é possível
tanta beleza
frente à terrível
devastação?

a presa
ali à mão
no xadrez político
não passa dum peão.



...e tudo é pó

pedras do caminho
   ardem no silêncio
   do artesão.

palavras por dizer
   de pernas dobradas
e borboletas
   em voos de acasalamento
esperam
   a flor desabrochada.

a claridade fere 
   a página por desbravar
e a cinza solta-se
   da terra queimada.

a vida é cruel
   quando a manada
   segue cega 
   o líder e o seu erro.