quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

a noite caída





"Daphne" - Frederic Leighton
Pintor inglês (1830-1896)

as chamas brancas do luar incendeiam a floresta do pensamento nas sombras de corvos enraizados que teimam o seu voo no firmamento do anjo protector.

já a noite caiu e as muralhas do sonho se fecharam nos lençóis de linho bordados pelas mãos que hão-de chegar e o teu corpo deitado na bruma afagar.

dorme sem medos pois o teu querer tem a força das árvores quando o vento sopra as copas do destino e amanhã o sol há-de aquecer o teu suave despertar.

e entretanto eu zelo como se fosses um passarinho do ninho caído na carícia do olhar e nas minhas mãos em útero fechado te podesse aconchegar.

dorme, amor, mas desperta 
por favor, que a vida clama
por ti...e reclama.


domingo, 25 de dezembro de 2016

na mesa do café


DOMINGO, 28 DE AGOSTO DE 2016


na mesa do café

todas as manhãs são manhãs de acolhimento
na mesa do café há sempre um qualquer momento
em que a vida encontra a essência do existir.

trocam-se conversas, comuns a alguns
e as cadeiras, testemunhas silenciosas,
suportam, estóicamente, o peso dos anos, de cada um
mas há, por vezes, almas solitárias
em que só os seus pensamentos
servem de companhia.

hora de almoço, e na mesa ao lado
senta-se a eternidade
corpo delgado, cabelo pintado com raízes brancas da idade
saia pelissada e blusa de outras eras
sem aneis ou alianças
de oculos de leitura, em massa, sobre o jornal das desgraças
come uma torrada, bebe um galão
e tem brincos pendurados, a condizer com a cor das rouxas flores estampadas
na frescura de tantos verões.
acende um cigarro e eu sinto-me mal por espiar.

deixo-a com as costas direitas,
na frágil fragância, da vida ainda com esperança.

lmc

24/12/2016

Porém, passados estes dias e meses , volto a encontrá-la noutra esplanada  e,
sem quê nem p'ra quê, e sem eu dar por nada, eis que a vida dela comigo veio ter...

O tempo decorria suave e aprazível, com as horas a despertarem o apetite do almoço.

Absorvido que estava, na leitura de jornais pelo smartphone, ainda vagamente a oiço, numa conversa ao telemóvel, em inglês.

Acabada a conversa dela e uma pausa minha na leitura, os nossos olhos encontraram um diálogo de ternura.

E foi ao responder a uma observação sobre os maus tratos a animais, que o nosso diálogo começou...

Não vou aqui transcrever nada do tudo que fiquei a saber, nem isso seria correcto.

O que poderei dizer é que, em cada ser humano, há todo um mundo acumulado de vivência e saber...
há um querer e um crer; há uma vida que a outras acabou por acrescer;
há raízes com estórias por dentro, recheadas do seu tempo; e esse tempo foi outro, foi um tempo que só nos livros constam, onde já não existe quem os possa narrar.
São pedaços espalhados, e que por vezes acabamos por "ler".

A nossa conversa deambulou por gerações (nossas) pós I Guerra e Mundial e locais como África, Madeira, EUA, e Portugal Continental  e por onde andaram, viveram e criaram. .

Ficou, assim, viva para nós dois mais um pouco de memória, que a poeira do tempo teima em tapar...
até alguém perto de nós chegar.

(conto de natal...sem nada em especial)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

{...}

{.....}

disse-lhe:
- tens um mundo à tua frente!
ela olho-me e num sorriso matreiro
com a ironia da juventude, perguntou:
- para que quero eu seguir o mundo, se o mundo sou eu...?

(mal sabia eu que todos os mundos são perigosos... )

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

o peso da palavra


cada palavra é
consignada e 
por dentro dela 
é tudo ou 
quase nada.

cada palavra
isolada ou 
em conjunto
criada
a palavra 
é sentimento.

tem vida presa
na fealdade ou 
na beleza.

escrita ou 
falada
cumpre a 
função
de alma gravada
na intenção.

sábado, 17 de dezembro de 2016

um não poema

hoje é branco o poema 
(conjugando as cores)
porque branca é a alma
e não tem físicas dores.
nada pertuba esta calma
neste poema sem tema.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

testamento


foto net


quando na tua mão 
pousar a despedida
do coração que foi 
palpitação sem medida
deixa-me partir 
pois meu corpo vai
mas meu espírito fica
...amor.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

1_4

....1
nem a chuva intermitente
nem o nevoeiro somente
ocultam do chão 
a flor  
repartida por cada olhar
por cada mão.
.....2
e no olímpico monte
há um palácio de memórias 
com deuses de cristais
fingindo céus.
.....3
toda a poesia é sonho 
e utopia
aquela que habita
por séculos ou raro dia
na ventura ou desdita
no (ir)real do corpo e da mente
que chega a ser
sendo porque se sente.
.....4
...e as verdades absolutas 
são o que são.