quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Equador



Um chão de Mar
Estendido ao olhar
Ao meio do dia
A travessia.

Linha do Equador
Um barco quase a vapor
O 'Quanza' a lamentar
O seu vagar.

E nos olhos da criança
A esperança
Debruçada 
Na âncora pendurada.

E na água prateada
Deste Mar
O menino espreitava
Os golfinhos junto à quilha
Num suave navegar.

(reeditado)


terça-feira, 19 de setembro de 2017

pequeno ponto azul nos confins do(s) universo(s)






misteriosas e estranhas veredas estas que
presas ao tempo colam imagens
fragmentadas
de verdades construídas nas incertezas e nas crenças com que habitamos os nossos medos.

esse tão diminuto grão de poeira onde permaneço
este meu ser, é uma ínfima parte no momento
instante que se faz num querer
tão absoluto.

viver o agora, sem muito pensar no passado
e com o próximo ou longínquo futuro
não estar angustiado
é passaporte para viver despreocupado.

mas tudo o que faço tem influência no futuro
e é nessa perspectiva, sem acreditar
noutras vidas, que não a que vejo e sinto,
que se me fosse dado olhar, dum distante sistema solar, a Terra parecer-me-ia uma frágil poeira no ar.

não há salvadores ou protectores
que nos venham ajudar.

...e só nós dela teremos de cuidar.

[nota: lamentavelmente, continuo com problemas na m/conta e impedido de comentar em blogs do Google.]

domingo, 10 de setembro de 2017

Quem Sois...?

Quem Sois, Senhora, que de meus olhos, tão luminosa beleza, cega minha tristeza?

Vendo-Vos, minha arte é sombra ardente, que de meu lume faço
e de amor trespasso.

Tendo-Vos, em tão vasto sentir, é um todo em parte
é abarcar o mundo num só abraço
e de minha alma voar todo o cansaço.

E sendo Vós tão rara e gentil presença, serve Vosso manto 
de útil e calorosa Benquerença.




a mais doce, a mais terna, a mais bela canção de amor.



quinta-feira, 31 de agosto de 2017

agosto



a meio do dia
já sem lugar
onde se refrescar
o gato segue as sombras
curtas dos beirais

vai com destino
sem dono
de fininho
à procura de luar.



segunda-feira, 21 de agosto de 2017

contra-luz



tinhas o sorriso preso ao olhar
e nesses olhos um pôr-do-sol
a bailar.
junto à falésia e ao fundo o mar
cruzaste o horizonte sentada
entre plantas verdejantes e raios de contra-luz.
não sei o que pensei ou sequer se o mundo era habitável em mim.
tudo ficou suspenso no tempo.
esse tempo dum só momento
dum só desejo.
dum juramento.
só me lembro que se houvesse um paraíso
ele seria aqui.
e nele poderia viver eternamente...


domingo, 13 de agosto de 2017

janela de poesia

Pôs-se à janela
parei, olhei-a e...
casei com ela.
.....

Não sei o que seria
esse olhar sem poesia
mas sei, meu amor
o que sem ti que dor
teria.

Isolo o pensamento
na dispersão do vento
e a mim chegam dias
dos poemas que dizias.

Hoje, tudo é diferente
nessa janela sem gente
de sonhos já tão curtos
e sombras dos nossos lutos.

Que importa tal leveza
se ainda vejo beleza
no dia que amanhece
e na noite que se tece?

basta-me na escuridão
a pequena chama
da vela na mão.


domingo, 30 de julho de 2017

holograma



quisera tão só ser o momento 
que não o do desprendimento.

quisera...
emergir o tacto entre as doces águas 
prender os abrunhosos seios à raiz do pensamento
reter a curta hora no minuto longo do nosso tempo
absorver a tarde clara até ao lusco-fusco da existência
(e gravar, nesse crepúsculo, toda a eternidade)
e por fim, do teu traslúcido  olhar
conservar em boião de olfacto
a noite de luar.

quisera...
mas o céu fez-se chama
e o ar que me tocou
era duma estrela cadente em holograma
que, sem o saber, quase passou,
qual quimera
e logo, logo, se apagou.

(à minha amiga Helena, ausente)

[Nota: Mantém-se o impedimento de publicar comentários noutros blogs, com erro na configuração da conta de e-mail, que não sei como resolver.]


segunda-feira, 24 de julho de 2017

prado de sombras


Neste porto de águas profundas
os embarques são lágrimas caídas
como cerejas no chão amadurecidas
sem ninguém para as saborear.

Sem regresso, partem imagens
de corpos, que fizeram sentido
e, na mais pura solidão
cumprem um destino, nos caminhos
que outros não adivinharão.

São sombras perdidas no prado
onde a luz desliza suavemente
para impedir toda a imortalidade.




segunda-feira, 17 de julho de 2017

passagem




foi tão breve esta passagem
entre vós
tão breve este amanhecer
que o ocaso já se aproxima
como se a vida neste mundo
fosse um só dia de crescimento.

não tive tempo de as minhas palavras

- tão poucas que elas foram -
chegassem ao vosso coração.

valeu a pena, mesmo assim, esta intenção.


se, um dia, casualmente

sentirdes  uma breve e suave brisa acariciando o vosso rosto
pensai que serão essas palavras a tocarem-vos em voos de compaixão.

sábado, 15 de julho de 2017

áfrica a sul

imagina-te prisioneiro
(vinte e sete anos de cativeiro)
condenado na vida, por inteiro
em cela exígua, longe, sem rastreio.

imagina, que o crime julgado
foi por seres negro, discriminado
e todo o teu povo, posto de lado
país onde nasceste e  foste criado
onde a tua voz se tinha levantado
contra a injustiça, pelo explorado.

imagina os muros e barreiras
necessários, que te levassem a criar
para todos os medos a excomungar
sem poderem entrar
e a dignidade por alterar
no trato e nas maneiras de ser
ganhando o respeito dos teus inimigos e transformando o ódio e todos os perigos, em amor pelo próximo.

imagina-te mais forte que todos os exércitos
derrotando-os com estes méritos
expulsando os medos da morte.

pois esse sonho foi real, mas está a ser destruído por outros, como tal.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Helena_ A Última Página


LUTO

QUARTA-FEIRA, 12.07.17



Leninha, por algum desses mistérios da vida, você sabia que estava partindo e quis preparar o meu coração, mas eu me recusei a ouvir as palavras que me queimariam como fogo, pois não queria aceitar que iria perder um pedaço de mim. Ainda ouço a sua voz a me orientar, a pedir, a explicar tudo que eu deveria fazer quando você partisse. E enquanto você falava eu apenas fiquei olhando o seu rosto tão suave, os fios do teu cabelo louro começando a crescer, gravando na minha alma a sua expressão e os seus lindos olhos verdes. Para sempre vou me lembrar da sensação que senti quando você me abraçou bem forte e falou: obrigada Veruskinha por tudo que fez por mim nesta vida.
Minha Leninha, eu nada fiz por você além de aceitar com muita gratidão as coisas maravilhosas que sempre me chegavam através da sua bondade, do conforto de seus conselhos, de suas palavras sempre cheias de carinho. Se fiz alguma coisa foi simplesmente amar você com aquele amor infinito como se ama uma filha do coração e estar sempre pedindo a Deus pela sua felicidade.
E quando você se foi, eu só conseguia sentir que estava perdendo uma parte de mim, e as lágrimas só receberam consolo por saber que você estava feliz, pois sabia que iria encontrar os seres amados que já haviam partido. E eu fiquei imaginando a festa que eles fizeram com a sua chegada e tolamente me lembrei daquela famosa frase do Pequeno Príncipe:
“Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!”
Para mim você será como uma estrela que vai me sorrir em qualquer parte do céu que eu olhar, pedindo um conselho ou apenas matando as saudades.
Vão ficar muitas das nossas histórias guardadas na minha memória, a me lembrar a falta que sentirei de você, minha amiga e irmã querida, minha "filha" tão amada.
Atendendo o seu pedido aqui estou encerrando o seu blog, apagando as postagens anteriores. Desculpe não ter seguido apenas a orientação de deixar um vídeo com uma das músicas que foi tema do seu casamento, a Ave Maria, pois eu senti necessidade de escrever estas palavras.
Daqui a algum tempo eu prometo apagar a minha mensagem e deixar apenas a música que você tanto gostava e que representava uma união de amor.
Agora eu me despeço de você, Leninha querida, e vou buscar um pouco mais da sua presença cumprindo todas as outras orientações que você me deixou, do jeitinho que você gosta, com capricho, com amor, com dedicação. Porque você era também isto, minha menina, uma perfeccionista em tudo que fazia.
Que Deus a tenha sempre na Sua Santa Paz.
Da sua, sempre sua,
Veruskinha




DE helena ÀS 13:58



sábado, 8 de julho de 2017

dois poemas, duas guerras [...]

Ressoam perto
Os tambores da guerra 
E dão como certo
O uso da fera.

É o clube nuclear
No seu 'melhor'
P'ra destruir
E...tudo acabar.

A dança das espadas
Nas sombras da guerra
E as vozes iradas
Nesta miserável Terra.

Há silêncios de morte
Nos vivos que esperam
Que sem o saberem
A morte, será uma sorte.

São cavalos de Ferro
Voando o Espaço
Cavalgam o Fogo
Varrendo o Chão
E deixam em Aterro
O nosso Perdão.

E só as espadas sentirão...!

.........

[mãe]
Soldadinho 
Oh, meu menino
Faz a picada
Que leva a nada
Olha o capim
Quase sem fim
Não te distraias
Em falsas faias
Parecem ouro
E são de morro
E as suas lanças
Têm lembranças
Dos 'canhangulos'
Em dias escuros.

[pai]
Faz a picada
Leva a espingarda
Bem empunhada
Não vá a sorte
Ditar-te a morte
Na distracção
Do pé p'rá mão.


[filho]
Olá pai, olá mãe
Eu, por cá, tudo bem.

[pensamento]
Hei-de voltar 
Se a morte 
Não me abraçar
E, se chegar
Junto ao teu peito
Quero sentir o palpitar
Naquele teu jeito
De tudo dar.

[anjo]
Que seja vivo
Inteiro
Sem chumbo 
A te matar
Ou a vestir-te
P'ra regressar. 







sexta-feira, 23 de junho de 2017

pinhal interior_natureza morta


"fénix" - foto da net
(atente-se ao lado esquerdo - parece uma imagem feminina com almas ao colo)

ardem as palavras 
incendiadas
na dor.

e sem fuga
no meio do terror
o grito cercado
desesperado
em turbilhão.

vidas em fogo
destruídas
sem compaixão.

entre o céu e a terra
as labaredas da nossa
incompreensão...



sábado, 10 de junho de 2017

deste nosso mundo

andre kohn

esta noite
todos os cantos são redondos
aos ouvidos e ao olhar
todos os sinais
são​ presentes
na presença do teu corpo
que adivinho
no interior deste amar.

esta noite
hás-de estar ao chegar
sem espera no tardar
e hás-de despir o preconceito
de dar
e receber
esta música
da pele a cantar.

esta noite
o nosso mundo é uma concha
e nada nos deverá perturbar.


[Nota: Um arreliante problema criado por recentes actualizaçõs do Google impedem-me de publicar comentários.

Pelo facto peço as m/desculpas.]


quarta-feira, 31 de maio de 2017

nos braços de morfeu



Morfeu e Íris
Por Pierre-Narcisse Guérin, 1811


traço o descanso do corpo
na geometria da noite
e deixo correr a mente
na insustentável leveza 
em voos de animação
onde estando me ausento
numa viagem de suspensão.

chegado o dia, caem os anjos

aos pés da cama e adormecem
em acalmia.


domingo, 28 de maio de 2017

sábado, 27 de maio de 2017

sinais...




Era um piar desesperado, em voos de agitação, da sala para o pátio interior e deste para o exterior onde, por uma janela gradeada, mas sem vidros ou portais, entrava de novo na sala.
Daqui, sem portas, voltava novamente ao pátio e poisava num muro limitador.
Revirava o pescoço nos dois sentidos e lançava ao ar toda a angústia, no chamamento de algo.
O meu pensamento, perante este insólito acontecimento, era de que a minha presença estava a incomodar este ser, sem outra razão.
E era compreensível. O barulho que fazia ao limpar os quintais das ervas daninhas, o cortar e podar árvores, o varrer o lixo acumulado no interior, aliado ao pó estampado no chão, davam aquelas duas horas um cenário de guerra.
Foi quando, já no final desta tarefa, ao recolher mais um destroço, dentro dum balde caído, no pátio onde o pássaro continuava em total desassossego, que encontrei, escondido dentro desse balde e por baixo do fragmento de telha, em plástico, a minha total surpresa:
um filhote, de pelugem negra, rabo ainda curto e bem alimentado.
Sem piar e responder aos chamamentos da mãe, mantinha-se imóvel, adivinhando qualquer perigo à sua existência.
Talvez a sua ainda curta vida lhe tenha ensinado os perigos nas incursões de vários felinos.
Os gatos faziam dali território privilegiado na caça e procriação.
Segurei-o com a mão mas, logo em seguida, escapou-se-me. Ligeiro sobrevoou rasteiro para dentro da sala.
Apanhei-o, de novo, e olhando em volta, na escuridão do fumo agarrado às paredes, descobri, por sobre uma janela protegida da intempérie, com vidro,   no que anteriormente tinha sido uma caixa de estore, um ninho encostado a um canto.
Peguei numa numa velha cadeira e com as pernas a tremer (creio do móvel), subindo-a, depositei aquela preciosa carga, dentro do ninho.
Seguidamente, saí, fechando a porta da entrada no pátio e entrei no carro, estacionado em frente à casa.
Fiquei à espera. Logo depois, a mãe veio a voar pousando no gradeamento da janela, que lhe dava acesso à sala e... ao seu tesouro. 
Olhou para mim, alguns momentos que me pareceram tão curtos para tanta felicidade minha e...entrou.
Ainda esperei alguns minutos antes de me vir embora.
E, nesses minutos, a minha alegria era imensa ao ver vida, onde antes
houve morte. O dono da casa pereceu ali, naquela sala, intoxicado por incêndio inadvertido.

Amanhã vou espreitar e saber se está tudo bem...


quinta-feira, 25 de maio de 2017

diz-me...!

diz-me quem és
pois do teu olhar
só a luz estrelar
chega a meus pés.

(sombra dissipada
na horizontal penúria
do crepúsculo)

diz-me o que pensas
pois de todos os livros
já lidos
esqueci todas as vozes.

(estantes de letras
com lençóis de pó 
onde dormem memórias)

diz-me o que amas
pois no lusco-fusco de espelhos
repousam os meus sonhos.

dize-me...!
e da tua voz serei eco.

sábado, 20 de maio de 2017

o Poeta e a Escrita


Lançamento do livro "Caligrafia Íntima", de Manuel Veiga, hoje, na livraria Pó dos Livros, em Lisboa.


dizem que
o poema é como uma flor
que nasce dum chão fértil
e é da raiz que extrai amor.
toca o coração qual projéctil
a leitura numa folha de papel.

construído na paixão 
num sentimento
numa ilusão 
numa emoção
na racionalidade
na razão
ou em tudo isso
o certo é a sua polinização.

o poema nasce
na solidão
com o autor em viagem
na memória ou na observação
e faz-se ave migratória
em voos de comunhão.

foi assim 
com alegria, humor
e satisfação
que o Poeta se expôs
em íntima paixão.

e distribuiu-se... a festa.




domingo, 7 de maio de 2017

à filha e à mãe


Gustav Klimt


Hoje fazes anos, Sofia
no dia que é da Mãe
da tua mãe
e da minha, também
de milhões
geradoras da tua existência.

Mãe
da semente nasceste
e da terra fizeste leito
onde cresceste
e entregaste o teu peito.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

passar...ternura




"- abraçar as árvores é uma forma de...passar...ternura!"
frase de criança, no dia: 'abraçar a floresta'

começo a acreditar
desbravando mar
que há uma terra
de palavras amadas
como velas içadas
e ângulo de vento
a mudar quem erra.

há um mundo em mudança
nas mãos duma criança.



terça-feira, 25 de abril de 2017

43 anos



(ao 25 de abril)

houve dias que marcaram
dias que me mudaram.

hoje faz anos
que longe
a minha vida se alterou...
sem o prever
sem sequer o entender.

não sei se um outro 'eu'
em iguais circunstâncias
seria o mesmo que eu.

do mundo que guardei
de todos os momentos 
- espaços, tempos e gentes -  
sou produto do que amei.

estive sempre no lugar certo
no momento certo
com as pessoas certas.

posso considerar que tive uma incrível sorte.


domingo, 23 de abril de 2017

a tarde /ou o 21 da carris

era tarde 
esperava
por ti
ao entardecer
e cada minuto 
passava
sem ti
por compreender
e  mais triste ficava
enfim
ao anoitecer
sem estar a teu lado
os dois
cego por te ver.

e as horas passavam
lentas
no medo de te perder
e sem saber
que fazer
perdido que estava
sem te poder ver
chegaste
tarde
na tarde 
desse anoitecer
sem nada dizer.



terça-feira, 18 de abril de 2017

só mais um dia...



a manhã instala-se
 suavemente 
 sobre os montes 
 e vales 
 e a luz clara rasga a janela
 por onde entra a lua cheia
 a desvanecer-se no horizonte.

as águas regressam ao leito
onde os sonhos navegam
por entre ondas de paixão.

o ocaso incendiará os céus
e do sangue se fará matéria.

todas as estrelas brilharão
e do seu manto se fará pão.

é só mais um dia
onde os olhos tomam forma
e nada parece estranho.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

um gesto simples

num gesto simples traçaste  o risco
em dedo suave ao tacto
sobre a pele
na fronteira do cabelo solto
em desalinho
e a testa na ruga do sonho surpreso
como se o dia fosse outro
e a noite não viesse
incomodar o sono do menino.

tudo era belo sob o céu azul do teu ninho.


quinta-feira, 30 de março de 2017

Carta Aberta a um pequeno homem -Jeroen René Victor Anton Dijsselbloem


DijsselbloemPresidente do Eurogrupo


 Carta Aberta a Jeroen René Victor Anton Dijsselbloem - (um pequeno homem) - Presidente do Eurogrupo


Caro Anton Dijsselbloem

Li nos seus lábios a afirmação, reconfirmada mais tarde, de que
"Não se podia gastar o dinheiro em mulheres e aguardente e, mais tarde, virem pedir ajuda".
Referia-se, sem dúvida, entre outros, ao meu País, Portugal.
Foi um insulto o que saiu da sua boca.
E não há, nem houve lugar, da sua parte, para se retratar de tamanha vileza e ofensa.

Posso-lhe desculpar o carácter, a educação, a estupidez.
Só não posso desculpar-lhe o sentido do seu pensamento.

Sim, porque é realmente isso que você pensa.

É uma mente xenófoba, sexista e reaccionária, em pleno século XXI.
E isto vindo dum social-democrata que se diz progressista.
Foi bastante grave o que disse, pensou e manteve.
Merece reparo e condenação.
Deve tirar daí todas as consequências, políticas e cívicas, demitir-se do cargo que ocupa no seio da comunidade de países do Euro e voltar para casa onde, de certeza, encontrará ambiente mais propício aos seus conhecimentos académicos e políticos, e ir plantar nabos.
E para isso nem precisa de mestrado.

Há dias assim, meu caro, onde o que nos vai na Alma, acaba por sair da boca para fora.

Só que de si, o que saiu foram palavra de merda, tão mal-cheirosas na aversão e cinismo com que as pronunciou.

Talvez houvesse uma ponta de verdade na construção do seu pensamento quanto à forma como utilizamos os apoios comunitários, desde a adesão de Portugal à ex-CEE:

Gastámos o dinheiro em pontes e estradas, para importarmos bens que vocês produzem;
Gastámos o dinheiro em abater a frota de pescas, para deixarmos de pescar;
Gastámos o dinheiro em destruição do tecido industrial (metalomecânica, siderurgia), para termos de importar;
Gastámos o dinheiro em abate da vinha, para não nos embebedarmos em eufuria com a 'festa';
Gastámos o dinheiro em corrupção, nos apoios da PAC, para nós invadiram com produtos agrícolas, a baixo preço, até terem o mercado nas mãos, e a nossa produção destruída.

Poderia dar-lhe mais exemplos de dinheiro 'oferecido', mas seria sempre 'um almoço não grátis'.

Esta foi a vossa ajuda.

Eu sei que desde a Reforma e Contra-Reforma alguma élite holandesa se acha puritana e superior;
Sei que olhavam os católicos do Sul
como os pobres onde todos os vícios existiam;
Sei que até os vossos famosos pintores retratavam esse desprezo;
Sei o quanto vos combatemos, para eliminar a pirataria instituída que nos faziam;
Sei das cidades que vocês incendiaram, no Brasil, para tomarem posse daquele território, rico e invejado;
Sei da derrota que sofreram ao tentarem invadir, São Paolo de Assunção de Loanda;
Sei que ficaram com possessões a Oriente, onde fomos derrotados;
Sei da Inquisição instalada em Portugal, a pedido do Rei, para defender o Reino, ameaçado pela vossa Religião, onde até nomeou o seu irmão para Inquisidor-Mor;
Sei do Marquês de Pombal ter expulsado do Reino Português os Jesuítas, que em grande parte foram para os Países Baixos (ironia do nome) e vos enriqueceram;
Sei do apoio que deram aos movimentos de libertação das antigas colónias portuguesas, em África, e ao mesmo tempo faziam negócios com o Regime Português.
Só não vendiam mais carros e outros equipamentos, porque não os produziam;
Sei que o vosso fito é a riqueza e quem é rico, tem valor e quem é pobre, merece desprezo;
Sei que bebem para se embebedaram até caírem de cu, enquanto nós sabemos beber, às refeições e para esquecer;
Sei que as vossas putas estão em montras, a maioria vinda de Leste, e os clientes são vocês;
Sei que falam uma língua híbrida, mas pode usar o tradutor da Google e compreender o que lhe escrevo. A minha língua é mais antiga;
Sei que indicou no seu curriculum um Mestrado que não tem. Nós também os temos por cá aldrabões, trapaceiros, corruptos, ladrões, entre políticos e banqueiros;
Sei que a vossa praça financeira capta a riqueza do meu País, onde se instalaram 19 das 20 empresas da bolsa de Lisboa (PSI-20)
Sei que é um desiquilíbrio na Europa dos 27, desleal e... um paraíso fiscal;
E sei que o dinheiro que nos emprestaram o estamos a pagar com sangue, suor e lágrimas, pelos juros malditos e agiotas, a que nos obrigaram.
E com a condição mais gravosa, ainda, de vendermos em saldo, ao desbarato, as melhores jóias que restavam: bancos, energia, seguros, aeroportos...

Obrigaram-nos a empobrecer ainda mais.

Por isso, pergunto-lhe: quem ajudou quem?

Mas também sei que pertence a um grande Povo, dum pequeno País, infelizmente com gente dentro, pequena, como pequena é a sua mentalidade.

Aqui fica esta carta e que lhe faça bom proveito.

Nota da sua biografia:

"União Europeia

Período21 de Janeiro de 2013 -Antecessor(a)Jean-Claude JunckerVidaNascimento29 de março de 1966 (50 anos)
Eindhoven,  Países BaixosDados pessoaisPartidoPvdA

Jeroen René Victor Anton Dijsselbloem (pronúncia aproximada /dêissel-blum/; Eindhoven, 29 de março de 1966) é um político neerlandês do Partido do Trabalho. Atualmente é Ministro das Finanças dos Países Baixos e presidente do Eurogrupo.

Como membro do Partido do Trabalho (Países Baixos)|(Partij van de Arbeid), centro-esquerda, é Ministro das Finanças dos Países Baixos desde 5 de novembro de 2012 no governo presidido por Mark Rutte. Foi deputado do Parlamento dos Países Baixos entre 2000 e 2012 (com uma interrupção em 2002), concentrando-se em questões de cuidados de juventude, educação especial e professores.

Jeroen Dijsselbloem estudou economia agrícola, com foco em economia empresarial na Universidade de Wageningen (1985-1991). Terá realizado investigação na área da Economia Empresarial, no University College Cork, na República da Irlanda (1991), com o objectivo de obter um Mestrado, sem no entanto o concluir.  Apesar de não ter concluído os estudos deste curso de Mestrado, entre Novembro de 2013 e Abril de 2014, o grau de Mestre constou da sua biografia oficial, até o mesmo ser desmentido por parte do University College Cork e da National University of Ireland.

De 1993 a 1996, ele trabalhou para o grupo parlamentar do Partido Trabalhista neerlandês e de 1996 a 2000, trabalhou no Ministério da Agricultura, Natureza e Pescas. De 1994 a 1997, foi membro do conselho municipal de Wageningen.

Jeroen Dijsselbloem é desde janeiro de 2013 o presidente do Eurogrupo.

Polémicas

Comentários sobre os países do sul da Europa

Em Março de 2017, poucos dias depois do seu partido ter sido copiosamente derrotado nas Eleições Gerais Holandesas, Dijsselbloem declarou ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung  "não se pode gastar o dinheiro todo em copos e mulheres e depois pedir ajuda", referindo-se aos países do sul da Europa afectados pela crise da dívida pública da Zona Euro. A 21 de Março, numa audição no Parlamento Europeu, recusou-se a pedir desculpa pelas declarações.

Estas palavras deram origem a reacções de indignação por parte de vários responsáveis políticos de alto nível de vários países europeus e de diferentes famílias políticas. Gianni Pittella, líder do grupo socialista no Parlamento Europeu (ao qual o partido de Dijsselbloem pertence) disse que "não há desculpas nem razões para usar linguagem desta, especialmente para alguém que supostamente é um progessista". 
Também o líder da bancada do Partido Popular Europeu, Manfred Weber, criticou o holandês, referindo no twitter que "a Eurozona é responsabilidade, solidariedade mas também respeito; não há espaço para estereótipos".
O Primeiro-Ministro de Portugal, António Costa, disse que "numa Europa a sério, o senhor Dijsselbloem já estava demitido neste momento; não é possível que quem tem uma visão xenófoba, racista e sexista possa exercer funções de presidência de um organismo como o Eurogrupo". O antigo Primeiro-Ministro de Itália, Matteo Renzi, também defendeu a demissão de Dijsselbloem, dizendo que "se quer ofender Itália, devia fazê-lo num bar, e não no seu papel institucional"."

in: wikipédia

quarta-feira, 29 de março de 2017

sorrisos...

Ivanlifan


Prometo-te que ainda hei-de apanhar um avião
e hoje, que o céu está aberto a um prematuro verão
era um dia bom para te lançar sorrisos e, suavemente
poisarem no teu regaço
mas há momentos melhores e agora não me apetece sair.

Fico aqui à espera do verdadeiro verão 
iremos ambos à praia e aí dois sorrisos nadarão.


domingo, 26 de março de 2017

multiversos



Descoberta uma das mais brilhantes galáxias do início do Universo_foto Nasa



(revisto e reeditado doutro m/blog, pouco visitado)

multiversos

Desde que nasci, a vida passou por mim
estive sempre parado, à espera  dela
e tão parado estive, que nem por ela dei
os anos passaram e por mim os desenganos
os sonhos, outros os sonharam, que não eu
outros fizeram o meu caminho
semearam escombros e 

esse sinuoso caminho
foi de círculos apertados
intransponíveis e cercados
não foi necessário qualquer movimento
não foi necessário dar um só passo
para ao meu encontro se fechar todo o firmamento.


Ainda olhava o horizonte e adivinhava
para além do mar
uma paisagem a desabrochar
ainda me passavam lampejos dum desejo

que não sabia se era real ou visceral. 

Era um desejo, simplesmente
ou algo assim, que não sei precisar ou definir
era uma imagem de uma outra vida

diferente da que tive, mas como posso saber 
se era outra a vida, da vida que tive
se não sei se vida tive?


Olho o céu azul e já não tenho tanto a certeza, ou nenhuma certeza
se o azul do céu é o que sei que é 

ou se não é, e me enganei
não deve ser azul, porque a cada momento

muda este sentimento
do que, o que vejo, seja azul
como a cada instante tudo muda à minha volta
tudo é movimento, tudo não, eu sinto-me estático
deve haver um erro de perspectiva, outros me verão móvel
não sei...  também não lhes perguntarei
que sentido faria ter opinião de quem qualquer opinião não teria?
a opinião de outros, a mim pouco me importa
importa-me mais o que realmente sinto
e o que sinto não é nada, um completo vazio
mas depois questiono-me: como pode haver vazio
se o vazio não existe; para haver vazio haveria de ser lindo
cada um, por si, em cada "ilha", todos impossibilitados de comunicarem
entre si; autónomos, eis a palavra própria; mas sem autonomia
por não poderem, qualquer um, ir onde quereriam ou desejariam
confinados ao espaço-tempo a que hoje - e sempre - me encontro


E aqui chegados, volto à partida, donde nunca parti
sem ter partido e sem ter chegado, por dentro de mim
o princípio e o fim; 

no mesmo ponto, sendo um só ponto
é isso, não passo de um ponto, num universo que não há-de ser único
e nem sei porque hei-de chamar "universo"
pode estar unido ao verso, e estará
mas muitos versos haverá, deveria chamar-se "multiverso"
ele não pode ser único, parecido, sim, mas único?
é pretensioso, ninguém é ´"único", eu não sou único
e posso dizer, que dentro de mim, há multiversos.


Hoje, neste sítio que me calhou, neste círculo tão restrito
penso a vida; 

penso naquilo que ela me deu 
e tudo aquilo que ela me não deu
tudo que ela representa e representou
penso as memórias longínquas

perdidas, já isentas das emoções que
adivinho, me fizeram viver e que, agora
já para nada servem; 

tudo se perdeu, ou nunca existiu
nem eu sei se existo ou, se existindo

houve um tempo e houve um espaço 
que por mim foi ou é ocupado.

Pois... 
a vida não é passado, a vida não é futuro
a vida é presente
sei que ela passou por mim

mas não sei se houve vida por dentro de mim.

lmc_13_Out_2015