quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

divagações




"Se a cada coisa que há um deus compete,
Porque não haverá de mim um deus?
Porque o não serei eu?
É em mim que o Deus anima
Porque eu sinto.
O mundo externo claramente vejo —
Coisas, homens, sem alma."

12-1931
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa

(divagações sobre o poema)

Pesa em mim a dúvida como se dúvida eu fosse. Pesa o silêncio
envolvente do universo por achar.
E eu, mundo interior dum cosmos,
tenho a gravidade inscrita. A de todos os segredos por desvendar.
Nada sei do que não sei e tão pouco é o nada que sei. Há só uma certeza na certeza da minha existência: que sou. E ela, tão curta para, tão volátil e tão frágil, deixar descobrir o que não se deixa saber. É razão, essa, a vida na incógnita da própria vida. Para quê, então, questionar? Pode-se respirar sem se ver, pode-se viver sem pensar, mas jamais se poderá viver sem sentir. E esse peso que o corpo carrega, o espírito regista. Todas essas memórias são átomos que se dispersam, como dispersos são os átomos do respirar e do tocar. E todos eles se misturam ao mundo. Esse mundo que lhe deram razão e perfeição.
Daí esta questão: porque não serei eu o deus na minha própria criação? Teria um deus por dentro, associado a todos os outros, formando o Uno da Razão.


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