domingo, 26 de fevereiro de 2017

ângulo



Domingos Sequeira_filha


do teu rosto esguio
só a distância conheço
no ângulo dos teus olhos
a medrar o vazio.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

a tia e a sobrinha



tinha um ar angelical
e uma beleza sem igual

na idade da primavera
tê-la era uma quimera

e na noite mais escura
onde se trocava ternura
havia um candeeiro na rua
fazendo as vezes da lua

as noites eram de espuma
debaixo da sumaúma
tão húmidas e tão quentes 
que confundiam as mentes

no corpo usava uma cinta
a conselho da tia de trinta
mulher bastante sabida
na experiência adquirida

e namorando a sobrinha
era a tia que lhe convinha.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

casas de 'passe'

José Malhoa_ O Fado _ (Adelaide da 'Facada' e o seu "marialva") 

águas corridas

passadas
da chuva
rios e levadas
perderam azo
de a par-e-passo
moverem as feridas 
deixadas
e as memórias
criadas
das más-línguas
e as estórias 
tão sujas
nas casas contíguas
às ruas.

vinhas

Uvas em cacho douradas
Nos lábios de beijos
E a espuma da noite
Derretida nas horas 

Nos olhos jovens desejos
Trocados em ternura de lua
Debaixo dum raro candeeiro
Que era deles por inteiro

E a rua era toda sua. Como sua
Na idade era a inocência.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

noites de s. joão



virgens de dores
pétalas doces
saga
em corpos soltos
oh clamores
perdidos somos 
entre a bruma 
dum simples olhar
para aí parar 
sempre a pensar 
com o coração 
preso ao falar.

andam as ruas 

a desabitar 
toda a fauna 
dentro do mar
e toda a forma 
a desenhar 
um risco unido 
no horizonte
perpendicular 
rasgando o céu 
em cores diletantes 
até aos montes
a zebrar 
a planície 
estendia 
em frente 
desse cantar. 

oh alegria 

no sol a espairecer
na urbe construída 
para te amar
e nas janelas 
entre vielas 
há uma paisagem 
a renascer
roupas em velas 
e as calçadas presas 
ao olhar 
e nelas se concentrar.

saltam cantigas 
a desfolhar 
vozes prendadas 
entre o luar
e todo um coro 
a deslizar 
no nosso rio 
a festejar
sobem balões 
a contentar 
olhos rendidos 
ao seu vagar. 

pátios antigos 

de mouros 
hoje estendidos 
no sangue herdado
e a conquista 
cruzando a dor 
e a pele na cor 
presença 
nas ruelas estreitas 
e singelas
entre o abraço
no curto passo
fintam os rostos 
muito bem postos 
e o seu andar 
quase a passar.

divagações




"Se a cada coisa que há um deus compete,
Porque não haverá de mim um deus?
Porque o não serei eu?
É em mim que o Deus anima
Porque eu sinto.
O mundo externo claramente vejo —
Coisas, homens, sem alma."

12-1931
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa

(divagações sobre o poema)

Pesa em mim a dúvida como se dúvida eu fosse. Pesa o silêncio
envolvente do universo por achar.
E eu, mundo interior dum cosmos,
tenho a gravidade inscrita. A de todos os segredos por desvendar.
Nada sei do que não sei e tão pouco é o nada que sei. Há só uma certeza na certeza da minha existência: que sou. E ela, tão curta para, tão volátil e tão frágil, deixar descobrir o que não se deixa saber. É razão, essa, a vida na incógnita da própria vida. Para quê, então, questionar? Pode-se respirar sem se ver, pode-se viver sem pensar, mas jamais se poderá viver sem sentir. E esse peso que o corpo carrega, o espírito regista. Todas essas memórias são átomos que se dispersam, como dispersos são os átomos do respirar e do tocar. E todos eles se misturam ao mundo. Esse mundo que lhe deram razão e perfeição.
Daí esta questão: porque não serei eu o deus na minha própria criação? Teria um deus por dentro, associado a todos os outros, formando o Uno da Razão.


dia dos namorados


(com namoro e amor)

Esse fogo que arde
e na pele aquece
as faces rosadas
e que não esquece
as carícias trocadas
na soleira da tarde.

Esse rio que corre
e a sede refresca
- entre rochedos -
os lábios em seca
de antigos medos
- amor que não morre!

Esta terra que vive
a semente germina
cobrindo as raízes
de criança menina 
- janelas felizes -
que outra não tive.

Este ar que respiro
dos bosques retido
perfume silvestre
que se tem mantido
em voos de mestre
dos frutos que tiro.

(Poderia o Amor ser mais... motivador?)


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A Dor do Amor

Domingos Sequeira_A Morte de Cleópatra


O Amor esse sentimento 
Em que viajo entre a paixão
E a dor. E em mim o lamento
De não ser eterno o coração.


domingo, 12 de fevereiro de 2017

um pouco mais...



mais do que amar
era criar
mais do que cantar
era escutar
mais do que escrever
era ler
mais do que falar
era calar
mais do que beijar
era olhar
mais do que sonhar
era parar
mais do que querer
era oferecer
mais do que perdoar
era esquecer
mais do que sofrer
era desnacer
mais... muito mais
era estar vivo
sentindo-o sem ser 
de menos
nem ser demais.



trémula luz

aquela muralha cerrada
em castelos de luz ardente
invade
estando parada
no amor de quem o sente.

mas a voz magoada
arrasta-se ébrida de dor
e as palavras em cisão
ecoam nas montanhas
da solidão.

uma densa neblina
no olhar
corre na estreita compreensão.

já não há rosas nos canteiros
regadas pela manhã
e só a secura da terra
lembra a ausência vã.

o sol morre
deixando para trás
o calor disperso.

e a noite faz-se de silêncios.




sábado, 11 de fevereiro de 2017

migração

Foto Net


Bebes os beijos de chuva
caídos em campo de flores
mas teus pés pisam horrores
de quem o teu sonho turva.

Foges de guerras longínquas
percorrendo terra e mar
fugindo às balas oblíquas
que procuram o teu olhar.

A morte seguiu-te a par
e com o medo presente
cola-se no caminho em frente
não te deixando pensar.

Já só tens uma vontade
pede o corpo sem cessar
parar
parar
parar...
neste mundo a desabar.

E perguntas:
- quando páras, tempo?


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

na 'nuvem' o último poema



Foto: LuísM


há no teu poema um corpo em núvens de cansaço
pássaro voando num horizonte volátil.

ilha dos amores do meu sonho escondido e tarde inventado.

não mais terás o achamento por mim acalentado
na última hora do dia acabado.

não mais serás fénix 
quando o céu da blosfera se fechar e o tempo por ti (e por mim)... não mais esperar.

queria-te sem o saber
se existias  ou se poderias ser - qual o lugar onde procurar
um filho inda por nascer.

hoje foste desejo no cerrado nevoeiro da criação.

mas a mim não mais chegarás.

eu e meus braços abertos são pontes no entardecer
são desejos de saber... e te ler.

quanta beleza há num ninho 
de labor 
sonhado e construído com amor. 

meus olhos cativos do encanto merecido.

poema 

onde estás tu, agora
que só existes por dentro
da minha memória?

(para a poeta Laura Santos , que encerrou o seu blog "Escrita no Vento")





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

ventos e marés

"Vento de Verão" - Vladimir Volegov
Pintor russo contemporâneo


reconheci-te a voz na escuridão
do dia no nosso olhar em linha
furando o destino entre a multidão
de gente que ia e gente que vinha.

reconheci-te sem ainda te conhecer
sem saber que eras ou poderias ser
um qualquer porto de acostagem
neste marejar de rio sem margem

reconheci-te sem qualquer química 
essa face oculta e insondável da lua
e nos intensos odores da monotonia
com que gastava os passeios da rua.

- como? - pois não sei o que foi
não sei, não! 

ainda hoje não sei como foi, amor 
se seria em mim fugir do temor
de sozinho viver sem um chão
ou outra qualquer misteriosa razão.